Artigos de Opinião

09 setembro 2020

Complacência ou risco ponderado?

Não deixa de ser frustrante que o Covid-19 já faça parte das nossas vidas há mais de seis meses e saibamos tão pouco sobre ele. A sua capacidade de reprodução colocou o mundo em standby e, como muitos receavam, apresentou-se resiliente à subida de temperatura dos meses de Verão. Desde que foi identificado, o vírus já infetou mais de 26 milhões de pessoas e vitimou mais de 870 mil, o que nos remete para uma mortalidade superior a 3,3%, amplamente superior à da gripe comum.

A necessidade de sobrevivência da economia levou-nos a pressionar o botão “play” e a aprender a “viver com o vírus”, embora mantendo em vigor os princípios de distanciamento social, de utilização de máscaras e de proteção dos segmentos mais vulneráveis.

Não obstante a reabertura da economia, a Europa conseguiu alcançar uma redução do número de novos infetados diários para níveis praticamente negligenciáveis e novos focos de infeções, enquanto os EUA, Brasil e Índia apresentaram trajetórias ascendentes de novos infetados/dia, decorrentes de uma abordagem menos consistente. Ao contrário do reportado por Donald Trump, a escalada do número de novos casos pouco se deveu ao aumento do número de testes realizados, uma vez que a percentagem de testes positivos permaneceu entre 5% e 10%, superior à recomendada pelas autoridades para uma interrupção “segura” dos confinamentos.

A verdade é que continuamos na presença de uma pandemia e a não poder declarar vitória. Nas últimas semanas e particularmente após a implementação de medidas mais restritivas em vários Estados norte-americanos, foi visível uma moderação do número de novos infetados nos EUA. Em contrapartida, assistiu-se a escalada de novos casos na Europa, com destaque negativo para a deterioração da situação em Espanha.

Vivemos um contexto de start/stop, em que os surtos locais de infeções vêm sendo alvo de medidas predominantemente direcionadas. Seja pela necessária reabertura das economias, seja por motivos de complacência associada à fadiga social deste enquadramento, o que importa registar é que a combinação de medidas profiláticas como o distanciamento social e o uso mandatório de máscaras com a maior capacidade de resposta dos sistemas de saúde vêm para já sendo eficazes para evitar novos confinamentos à escala nacional. Não será de descartar, no entanto, uma escalada do número de novos casos nos próximos meses.

O sucesso deste processo não depende apenas da reabertura da economia e da contenção do vírus mas sim do equilíbrio entre os dois objetivos. Se é certo que teremos de continuar a lidar com o Covid-19, é igualmente um dado adquirido que a retoma económica continuará refém da evolução da pandemia, que permanecerá uma incógnita até que se atinja uma situação de imunidade de grupo. Este processo será presumivelmente facilitado pela identificação de uma vacina.

São neste momento oito as vacinas que se encontram atualmente na fase III dos ensaios clínicos, o que de acordo com os especialistas deixa boas indicações para que sejam submetidas para revisão regulatória entre outubro e dezembro de 2020. Um paper no American Journal of Preventative Medicine sugere uma necessidade de cobertura de 75% da população para uma vacina com uma eficácia de 70% para extinguir o COVID-19, na ausência de outras medidas como o distanciamento social. Por outro lado, um inquérito do Fórum Económico Mundial aponta a uma aceitação da vacina de 74% a nível global, dispersa por uma disponibilidade de 97% e 88% da China e do Brasil, respetivamente, até 67% nos EUA, Itália e Alemanha e de apenas 54% na Rússia.

Economia recupera, mas há caminho por percorrer

Como esperado, a reabertura das economias possibilitou uma recuperação muito significativa numa primeira fase, entre maio e junho, seguida de uma moderação da cadência de normalização da atividade entre julho e agosto.

De acordo com os indicadores económicos de maior periodicidade e com as métricas de mobilidade, estamos a atravessar um plateau que se encontra intrinsecamente conexo à natureza deste choque, com impacto setorial assimétrico, particularmente penalizador para segmentos como a restauração, hotelaria, aviação, etc., que dificilmente retomarão a sua atividade regular até que os princípios de distanciamento social sejam abandonados.

Ilustrativamente, mesmo após dois meses de forte recuperação do mercado laboral, o número de desempregados em julho nos EUA está ainda acima de 16 milhões de pessoas, superior a qualquer mês pós-2ª Guerra Mundial e superior em mais de 10,5 milhões ao verificado no pré-crise Covid-19. No mesmo sentido, mesmo assumindo uma forte recuperação do PIB no 3º trimestre do ano (+30% em cadeia, em termos anualizados), o PIB dos EUA permanecerá mais de 4 pontos percentuais abaixo ao período pré-crise, superior à quebra acumulada do produto verificada na crise financeira de 2008/2009.

Mesmo após a identificação da vacina/terapêuticas eficazes e o levantamento da totalidade das restrições, haverá provavelmente aspetos que não voltarão ao “velho normal” no futuro imediato. Falamos de alterações comportamentais dos consumidores, maior flexibilidade laboral, menor número de viagens laborais, novos conceitos de mobilidade e de ocorrência de eventos, regras sanitárias mais apertadas, etc.. O timing da recuperação económica integral é portanto incerto, e esta poderá provar-se insuficiente para retomar a trajetória de longo prazo de crescimento pré-crise Covid-19, à semelhança de crises económicas anteriores.

A natureza da recuperação económica depende assim de uma multiplicidade de fatores, entre os quais a evolução da situação pandémica, as decisões de consumo e investimento das famílias e empresas e da resposta dos governos e das autoridades monetárias. Se o comportamento dos dois primeiros fatores é incerto, a magnitude e celeridade dos estímulos e das medidas extraordinárias anunciadas foram à altura do desafio.

A Fed avançou para compras ilimitadas de ativos, entre os quais dívida empresarial, cortou as taxas diretoras de 2% para 0% em apenas duas semanas e vaticina que as taxas permanecerão nesses níveis pelo menos até 2023. O BCE por sua vez retomou as compras de ativos e anunciou uma multiplicidade de outras medidas entre as quais leilões de cedência de liquidez a taxas de juro de -1%. Os bancos centrais de economias emergentes acompanharam esta propensão e tornaram igualmente as suas políticas monetárias mais expansionistas, não obstante a pressão sobre as respetivas divisas.

Em termos agregados, o balanço da Fed, BCE, Banco Central do Japão e do Banco de Inglaterra cresceu 36,4% entre fevereiro e agosto, para um nível correspondente a 66% do PIB agregado dos quatro países.

No âmbito orçamental, foi alcançado um acordo histórico na Europa com a criação de um plano de recuperação económica europeu decorrente da emissão conjunta de dívida comunitária. A este plano acrescem outras medidas de emergência económica comunitárias e de círculo nacional. Destaque ainda para os mecanismos de proteção do emprego europeus, que evitaram uma destruição massiva de emprego e que serão muito provavelmente estendidos na generalidade dos países pelo menos até ao final do ano (no caso alemão até ao final de 2021).

Nos EUA os estímulos orçamentais anunciados foram ainda mais extraordinários, superando $3 biliões, sendo expectável o anúncio de um pacote adicional nas próximas semanas.

Em suma, a postura amplamente expansionista das políticas orçamental e monetária deverá vigorar durante um período prolongado de tempo, tão longo quanto necessário, o que significa que a durabilidade dessas medidas deverá suplantar a do vírus, o que constitui um importante suporte para a economia mundial e um fator estabilizador na ótica dos mercados financeiros.


Artigo de autoria:
Luís Andrade

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