Artigos de Opinião

24 março 2020

Covid-19: Saúde Pública vs. Implicações Económicas

A propagação do coronavírus, agora oficialmente uma pandemia global, tornou-se um tema incontornável no dia-a-dia de todos nós, com impactos transversais numa ótica social, de saúde pública e profissional.

Quando o surto surgiu na China antecipou-se que o impacto económico global se fizesse sentir principalmente pela via da oferta, decorrente da afetação das cadeias de distribuição globais. Perspetivou-se, como tal, um forte choque seguido de uma rápida recuperação económica (“em v”).

O resultado das medidas implementadas na China, assim como em Macau, Singapura, Japão e Coreia do Sul, entre outros, é visto como evidência que são necessárias medidas rígidas para a contenção do vírus, mas que estas acabarão por produzir os resultados pretendidos.

Apesar do sucesso da China na contenção do vírus, o aumento exponencial do número de casos no resto do mundo, com mais de 190 países afetados, justifica uma reavaliação das repercussões económicas do Covid-19. Na Europa, a Itália e mais recentemente a Espanha, França e a Alemanha são os países mais afetados, apresentando um aumento exponencial do número de infetados. O total de casos ativos em Itália ultrapassa já amplamente os casos ativos na China.

O decretar do estado de emergência nestes países - e desde dia 19 também em Portugal - significa restrições à livre circulação, à agregação de pessoas, o encerramento de espaços públicos e a colocação de milhões de cidadãos em quarentena, com pesadas implicações económicas tanto mais significativas quanto maior for a duração destas medidas.

Torna-se redundante acrescentar quaisquer informações adicionais já sobejamente veiculadas sobre a natureza e epidemiologia do Covid-19, altamente infeciosa e com uma elevada taxa de mortalidade quando comparado com uma gripe sazonal.

A Itália é o tubo de ensaio da Europa nesta matéria, aguardando-se eficácia das medidas drásticas até agora implementadas. Para já, as notícias diárias de Itália não preconizam grande otimismo, face à ausência de uma estabilização do número de novos casos diários.

Neste enquadramento, face à informação disponível, adensam-se os receios e a gestão de expetativas no sentido de uma percentagem significativa da população europeia ser afetada pelo Covid-19. Algo que nos remete para a dimensão mais relevante neste âmbito, a (in)capacidade de resposta das autoridades de saúde, o que amplifica a necessidade de contenção da taxa de propagação da epidemia.

Tudo isto culmina necessariamente em incerteza. Face à carência de eventos disruptivos de natureza e de proporção semelhantes, resta a elaboração de projeções e de cenários de evolução da pandemia. As perdas económicas e humanas são para já impossíveis de avaliar, o que alimenta o cenário atual de pânico social e nos mercados financeiros.

Quaisquer projeções económicas são neste momento prematuras, mas as implicações económicas deste fenómeno serão seguramente bastante severas. Em primeiro lugar, as restrições à circulação quer ao nível nacional quer internacional lesam os fluxos de bens e serviços e deterioram as cadeias de valor globais. Em segundo lugar, o cenário de incerteza traduz-se no cancelamento de viagens de lazer e de negócios (foram já canceladas mais de 200 mil viagens em 2020). As compras de automóveis e de novas habitações são adiadas, assim como as decisões de investimento pelas empresas.

A quarentena de milhões de cidadãos produz consequências quer numa ótica de produção (encerramento de fábricas, restaurantes, etc.) quer numa ótica de procura. Por último, o contágio do clima de receio e incerteza aos mercados financeiros, se sustentado, poderá produzir efeitos de arrastamento à economia real. A desvalorização dos mercados acionistas induz índices de pânico crescentes, com impacto na riqueza financeira das famílias, assim como no custo do capital das empresas.

Ainda assim, face à sua natureza, este choque exógeno deverá produzir apenas implicações durante um período limitado de tempo, decursivas do período de vigência das medidas de contingência e dos efeitos que este enquadramento produzirá no tecido empresarial (em matéria de incumprimentos e de despedimentos).

No passado, a gripe espanhola entre 1918 e 1919, num fenómeno de magnitude extrema, infetou um terço e vitimou 5% da população mundial, originando uma recessão económica profunda mas com uma duração de apenas sete meses. A situação atual deverá ter um perfil semelhante, um impacto económico profundo no curto prazo, procedido de uma recuperação rápida que beneficiará da dos estímulos monetários e orçamentais sem precedentes anunciados no passado recente.

De acordo com o mais recente comunicado da Comissão Europeia, o impacto económico do coronavírus poderá atingir 2,5% do PIB da UE, podendo resultar numa contração de aproximadamente 1% do produto no ano de 2020. Ainda assim, a convicção generalizada aponta a uma reaceleração da economia europeia no segundo semestre do ano.

Resposta das autoridades ao Covid-19

Apesar de incertas, os bancos centrais e os governos mais impactados têm procurado minimizar as implicações económicas da epidemia. Na verdade, estímulos monetários e orçamentais não produzirão quaisquer resultados em matéria de taxa de contaminação e terão uma capacidade apenas limitada para estimular o crescimento económico no curto-prazo (face à extensão das medidas de contingência em prática). Não obstante, o anúncio de estímulos monetários assume-se como determinante para proporcionar amplos níveis de liquidez ao setor empresarial, garante o normal funcionamento dos mercados financeiros e possibilita a estabilização dos índices de confiança dos consumidores e dos empresários, num enquadramento de deterioração expressiva das condições financeiras. Neste sentido, e face aos diminutos riscos de aceleração da inflação, uma multiplicidade de bancos centrais a nível global anunciou cortes das taxas diretoras, leilões de cedência de liquidez e programas de compras de ativos.

Destaque neste âmbito para a Reserva Federal dos EUA, que cortou a sua taxa de juro de referência em 150pb em duas reuniões de emergência em apenas uma semana e anunciou um novo programa de compras de ativos (compras sem uma dimensão pré-definida, com base no objetivo de estabilização das condições financeiras), entre outras medidas de cedência de liquidez e de compra de dívida empresarial para garantir a estabilidade, a liquidez e o normal funcionamento do sistema financeiro. Uma multiplicidade de outros bancos centrais seguiu o seu exemplo.

O Banco Central Europeu aumentou o seu programa de compras de ativos em €120 mil milhões num primeiro momento, subsequentemente reforçado em €750 mil milhões até ao final de 2020, o que resultará em compras mensais de ativos de aproximadamente €130 mil milhões/mês de ativos (contabilizando o mecanismo existente de compras de ativos e os reinvestimentos mensais do BCE) até ao final de 2020. Foram ainda anunciados novos mecanismos de cedência de liquidez ao setor bancário com condições mais vantajosas. 

Face ao cada vez maior esgotamento da capacidade de resposta pela via de estímulos monetários e à sua maior eficácia para fazer face a desafios desta natureza, o foco colocar-se-á crescentemente na implementação de estímulos orçamentais direcionados.

Entre as medidas mais habituais destacam-se o corte e adiamento dos pagamentos de impostos, proteção ao desemprego, proteção de infetados como a gratuitidade dos testes de diagnóstico do Covid-19, gastos no setor da saúde, investimento em infraestruturas, a proteção do tecido empresarial via disponibilização de garantias e linhas de crédito. As medidas nos EUA poderão contemplar a distribuição de cheques por família (pagamentos superiores a $1000 por adulto e superiores a $300 por criança). Estes mecanismos originam benefícios de caráter quase imediato e mais direcionados aos agentes mais impactados pela crise.

A Itália, o país mais impactado pelo surto, anunciou um aumento da despesa pública que totaliza €25 mil milhões, um montante que muito provavelmente será reforçado e significará uma deterioração do défice orçamental. A Comissão Europeia já anunciou igualmente medidas de suporte ao setor empresarial, de proteção no emprego e a alocação de €37 mil milhões ao combate à crise do Covid-19, tendo comunicado ainda uma flexibilidade total no que se refere às regras de disciplina orçamental europeias, possibilitando uma resposta adequada a este desafio.

Antecipa-se a ativação das linhas de crédito do ESM para o financiamento a condições mais favoráveis dos países mais impactados por esta crise, como sejam a Itália e a Espanha, o que proporcionará igualmente compras praticamente indiscriminadas de dívida soberana pelo BCE, ao abrigo do programa OMT (Outright Monetary Transactions, anunciado em 2012 mas sem que tenha sido utilizado no passado).

A tendência nas próximas semanas deverá ser de anúncio de estímulos adicionais em resposta à propagação do vírus.

Quebra do acordo da OPEP

Como se não bastassem as implicações económicas negativas do Covid-19, a quebra do acordo da OPEP significou um fator de stress adicional para a comunidade de investidores.

Em resposta à quebra da procura global de petróleo, foi proposto no passado dia 6 de março um corte de produção pelo cartel de 1,5 milhões de barris/dia. A proposta não recebeu aceitação por parte da Rússia, tendo a indústria de extração de petróleo de xisto nos EUA como a principal visada. Tal motivou (1) um desapontamento face às expetativas dos investidores e (2) o anúncio de um aumento de produção e de maior corte de preço das exportações petrolíferas da Arábia Saudita (2º maior produtor mundial, a seguir aos EUA) para a Europa e para os EUA.

As implicações económicas são difusas. Se por um lado fortes correções da cotação do petróleo originam tipicamente uma transferência de riqueza dos países produtores para os países importadores e induzem um efeito de riqueza para os consumidores, é igualmente relevante salientar as implicações financeiras deste incidente. Assistir-se-á a um aumento do incumprimento das empresas do setor energético, em particular nos EUA, com possíveis efeitos de arrastamento em outros segmentos, como no setor bancário e na qualidade creditícia das economias emergentes mais vulneráveis à flutuação do preço da matéria-prima.

Implicações para os mercados financeiros

A reação da comunidade de investidores a esta confluência de eventos foi dramática. Os mercados acionistas registaram a correção mais rápida de sempre, com a incerteza a exponenciar o sentimento de pânico, o que originou uma escalada dos índices de volatilidade, a maior correção do mercado acionista dos EUA desde 1987 e a maior correção diária de sempre do mercado acionista europeu.

Num cenário de controlo da pandemia e recuperação macroeconómica, será expectável uma valorização do mercado acionista e dos mercados de crédito, cuja atratividade aumentou consideravelmente após as recentes desvalorizações.

O timing desta recuperação é ainda incerto, e poderá estar associado a uma estabilização da epidemia ou a um maior grau de otimismo relativamente à capacidade de contenção da mesma. Uma vez que a evolução dos mercados financeiros reflete a antecipação de acontecimentos futuros, a recuperação poderá decorrer da incorporação de uma recuperação económica ainda antes de uma erradicação do vírus.

Apesar da incerteza e dos receios quanto ao futuro, é essencial salientar que as valorizações atuais das classes de risco se encontram bastante pressionadas e consistentes com um cenário económico bastante mais negativo do que uma contração profunda mas momentânea. As valorizações atrativas de diversos segmentos do mercado sugerem um apelo para que os investidores não desinvistam neste momento, devendo ser inclusivamente visto como uma oportunidade para entrar e/ou progressivamente reforçar os seus investimentos com uma oportunidade de remuneração futura acima da média histórica nas respetivas classes de ativos.

A incapacidade de muitos investidores em lidar com estas correções leva-os a vender em momentos de stress, prejudicando as suas rendibilidades e acentuando as correções no mercado, o que gera uma oportunidade para os restantes, com uma perspetiva de médio/longo prazo.

Num cenário base, será expectável que o ritmo de propagação do vírus aplane e que o número de casos ativos diminua nos próximos dois meses. Mesmo assumindo um cenário de recessão técnica (contração do PIB em dois trimestres consecutivos) no 1º semestre de 2020, os estímulos monetários e orçamentais sem precedentes anunciados nas últimas semanas contribuirão para uma estabilização e consequente recuperação dos mercados financeiros e da economia mundial.

A correção do mercado acionista registada nas últimas semanas é já uma das maiores dos últimos 50 anos. Embora os níveis atuais possam não corresponder ainda ao ponto mínimo, o processo de recuperação é normalmente forte e concentrado em poucas semanas ou meses, como comprovam os números do quadro, pelo que a saída de mercado, na maior parte dos casos, significa uma oportunidade perdida ou a cristalização irremediável de perdas.

Fonte: Our world in data - "Covid-19 - Statistics and Research"; IMGA


Artigo de autoria:
Luís Andrade

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