11 março 2020
A disseminação do coronavírus para além da China e a perceção de um impacto mais longo e considerável nas economias globais provocaram um aumento acentuado da volatilidade nos mercados e uma fuga para os ativos de refúgio. No domingo, os casos confirmados de coronavírus (oficialmente Covid-19) superaram 110.000 com uma taxa de mortalidade a rondar os 3%.
A situação agudizou-se com a notícia que a Arábia Saudita iria aumentar a sua produção de petróleo numa clara resposta à Rússia que, no passado fim-de-semana, não chegou a acordo com a OPEP no que concerne a uma redução do output diário de barris de petróleo, de modo a manter estabilidade de preços, numa altura em que a procura está ameaçada. Recorde-se que o custo de extração por barril é completamente diferente nestes dois países: ao passo que o custo por barril na Arábia Saudita cifra-se nos USD 8,98 na Rússia esse custo já sobe para USD 19,21. Assim sendo, a nação do Golfo Pérsico tem muito mais capacidade de suster uma margem mais pequena do que a sua congénere russa. No entanto, os esforços que o atual governo de Vladimir Putin tem feito para ajudar a tornar a Rússia menos dependente do petróleo levam a que haja capacidade para poder ripostar contra um preço mais baixo provocado pela decisão árabe, chegando a afirmar que a sua economia pode suportar os preços atuais durante 6 a 10 anos. Fora destas geografias, haverá principalmente pressão nos produtores de petróleo de xisto, cujo preço de extração é mais caro que no petróleo russo e árabe, pelo que será necessário investimento (em tecnologia que reduza esse custo) numa indústria que paga elevados dividendos.
É provável que as notícias nos próximos dias não tragam grande alívio aos investidores, com as taxas de infeção e mortalidade que são relatadas ainda em ascensão. As ruturas de oferta e procura são reais, assim como seu impacto económico.
Apesar da taxa de desemprego se encontrar em mínimos históricos nas grandes economias, espera-se que os dados daqui para frente se deteriorem e as empresas continuem a rever em baixa as suas estimativas de resultados para o corrente ano. As correções dos mercados acionistas começam a antecipar um corte no crescimento de earnings para 2020.
A verdade é que ainda não sabemos a extensão do surto ou a magnitude de abrandamento económico que pode causar. Sabemos apenas que ocorre num momento em que o crescimento global estava em recuperação depois de um 2019 marcado por forte abrandamento, portanto é possível uma contração económica de caráter não recessivo.
No entanto é necessário ter em linha de conta que os Bancos Centrais estão atentos à situação. A Reserva Federal Americana numa atitude mais pró-ativa, decidiu cortar as taxas de juro, dando nota que tem ainda munições para fazer novos cortes em breve. Por outro lado, estão a ser considerados cortes adicionais nos impostos para apoio à economia. Na Europa, apesar das ferramentas à disposição não serem as mesmas também é esperado que o Banco Central Europeu, em coordenação com os Governos da Área Euro, proporcione alguma dose de estímulos. Medir a dose certa de remédio para enfrentar crises económicas é notoriamente difícil, como mostra a história recente.
A generalidade das economias deverá, assim, recuperar na segunda metade do ano, à medida que o efeito do coronavírus se dissipe e o efeito das medidas fiscais e monetárias chegue à economia real.
Como deve responder o investidor face aos acontecimentos?
A resposta curta é: calma e racionalidade.
Num momento de incerteza, existem poucas razões para os compradores entrarem e aumentarem o investimento em ações no curto prazo. No entanto, no longo prazo, os momentos de pânico têm-se revelado excelentes momentos de entrada. A 12 meses, a maioria dos mercados de ações está agora com valorizações negativas depois das fortes quedas das duas últimas semanas, o que colocou os principais índices de referência com perdas em redor dos 20% face aos últimos máximos.
Por outro lado, os investidores podem beneficiar da valorização que os ativos de refúgio (como obrigações de governos de elevada qualidade creditícia, o iene e o ouro, por exemplo) podem oferecer.
O investidor deverá nestas circunstâncias ter uma abordagem ativa e identificar oportunidades com bom potencial, reavaliar a sua carteira e se possível aumentar o seu portfolio, diversificando.
Uma boa decisão de investimento deve ser tomada com “cabeça fria”. A fonte da incerteza será sempre diferente, mas processos de investimento bem estabelecidos são projetados para lidar com eventos como estes, permitindo que os gestores de fundos ativos se afastem e avaliem e busquem desapaixonadamente oportunidades, independentemente das condições.
Um bom investimento envolve sobretudo horizontes temporais de investimento de longo-prazo, a decisão sobre uma estratégia de acordo com os objetivos definidos e a sua implementação.
A única coisa real que muda, no curto prazo, é o número de vezes que lavamos as mãos ou que interagimos socialmente. De resto devemos continuar como “business as usual”!
Direção Comercial
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