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Direção da Semana
14 Março 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
BCE volta a "pôr a mão por baixo" da Zona Euro
Na quinta-feira passada as ações afundaram, o euro caiu para mínimos de quatro meses, tendo chegado a cair 0,6% face ao dólar e o índice que reúne os maiores bancos europeus caiu quase 3%. O S&P 500, nos Estados Unidos, registou a maior queda desde o início do ano e as obrigações de dívida norte-americana e alemã receberam a atenção dos investidores, à procura de algum refúgio para os seus investimentos. O que foi que o Banco Central Europeu disse que os mercados não gostaram?

A resposta é dupla: por um lado o cenário macroeconómico já teve dias (bem) melhores e, por outro, o BCE ficou aquém do que o mercado gostaria de ter ouvido, na conferência que Mario Draghi deu após a reunião mensal em Frankfurt.

Começando pelo cenário macroeconómico

Um dia depois da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) ter revisto em baixa o crescimento para quase todos os 20 países que compõem o grupo, no dia 7 foi a vez do BCE vir reduzir substancialmente as previsões de crescimento para 2019, de 1,7% para 1,1%. Também a inflação foi revista em baixa, de 1,6% para 1,2%.

Por trás destas previsões mais negativas, está um conjunto de razões. Desde a guerra comercial entre os Estados Unidos e China, ao Brexit, até à crise italiana: no final de 2018, Itália entrou oficialmente em recessão. Mas há um risco central, o motor da Zona Euro chamado Alemanha.

O Natixis divulgou recentemente um estudo em que analisava justamente o abrandamento da maior economia europeia que, desde o final de 2017, tem vindo a acentuar-se. De tal forma que as previsões para a economia alemã em 2019 foram revistas em baixa de 1,7% para apenas 0,9% pela Câmara de Comércio e Indústria alemã e para 1,1% pela Comissão Europeia (que antes tinha uma previsão de crescimento para a Alemanha de 1,8%).

Que mecanismos estão a travar o crescimento da Alemanha? Por um lado, a política orçamental excessivamente restritiva: a Alemanha tem agora um excedente orçamental de 1,7% e não está a usar essa margem para fazer a economia acelerar. A confiança dos consumidores tem estado em queda contínua, o que levou a que as famílias aumentassem a poupança e reduzissem o consumo, algo que está a contribuir para o abrandamento da economia.

Por outro lado, o setor automóvel, a maior alavanca de crescimento do país enfrenta problemas sérios e, possivelmente, estruturais. O facto de, internacionalmente, existirem metas ambiciosas de reduções de CO2 e de descontinuação do 'diesel', tem tido um impacto tremendo nas exportações do país.

O que pode estar em causa é o próprio modelo em que assenta a indústria automóvel alemã. O facto de as exportações terem abrandado significativamente, tem provocado um aumento dos custos unitários de produção desde o final de 2017, o que contribui ainda mais para o abrandamento das vendas ao exterior.

Que veio dizer o BCE?

Em primeiro lugar, que as taxas de juro na Zona Euro não vão subir antes do próximo ano e, mesmo assim, poderá acontecer mais tarde do que mais cedo em 2020. Anteriormente, a expetativa era a de que começasse a subir depois do Verão.

Por outro lado, anunciou uma nova ronda de estímulos ao setor da banca, designadamente empréstimos ainda mais baratos para estimular a concessão de crédito à economia, com Mario Draghi a dizer que os dados económicos revelavam uma moderação considerável em matéria de crescimento. O momento atual, afirmou, é de fragilidade e incerteza e as perspetivas para o curto prazo deterioraram-se significativamente.

Com estas decisões, o BCE seguiu o exemplo da Reserva Federal norte-americana e do Banco de Inglaterra: ambos mudaram de política recentemente, para voltar a apoiar e estimular as economias.

A grande questão que se coloca agora é se estas medidas serão suficientes. Provavelmente não. E, ao contrário da Fed e do Banco de Inglaterra, o BCE tem pouca margem para ir além, já que as taxas de juro estão próximas de zero.
 
Alexandra Ferreira (209)