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Direção da Semana
16 Novembro 2018
Alexandra Ferreira - Opinião
Contagem decrescente para um Brexit “des” controlado?
As nuvens pareciam estar a desaparecer no início da semana, depois da primeira ministra britânica ter anunciado que tinha conseguido obter acordo do executivo britânico para o plano que tinha, finalmente, conseguido fechar com a União Europeia. Mas foi sol de pouca dura. Menos de 24 horas depois deste anúncio, vários ministros britânicos apresentaram a demissão, em desacordo com o plano, incluindo o responsável pela negociação do Brexit.

Com ou sem acordo entre Reino Unido e União Europeia, as consequências estão à vista: desde junho de 2016, depois do referendo que marcou o início do Brexit, já saíram do país mais de 53 mil milhões de libras, com os investidores a protegerem os seus investimentos da instabilidade e incerteza que aí vinha.
 
Antes de mais, este acordo não se debruça sobre o que será o relacionamento futuro do Reino Unido com a União Europeia. É antes um guião que estabelece as regras de saída. Nesse sentido, estabelece um período de transição que começa a 29 de março de 2019 e se prolongará por 21 meses. Durante este período, o Reino Unido continua a seguir todas as regras da União Europeia, para que Governos e empresas tenham mais tempo para se preparar para o dia em que o Reino Unido se desliga da União.
 
Este período de transição também serve para que as duas partes negoceiem os novos termos de um acordo comercial, uma vez que o Brexit implica o fim da livre circulação de bens, serviços e pessoas. A expectativa é que algures em 2020 esteja desenhado um acordo de longo prazo.
 
Depois da demissão dos ministros, mercados agitam-se.
 
A libra deu o maior tombo em 17 meses e o setor financeiro foi o mais afetado, com bancos como o Royal Bank of Scotland a perder quase 5%. O risco dos bancos britânicos, medido pelo valor dos Credit Default Swaps disparou e o mercado espera agora que o Banco de Inglaterra adie para 2020 uma subida das taxas de juro. A yield da dívida pública britânica caiu 10 pontos base para 1,41%, indicando menos apetite dos investidores.
 
Este é o cenário hoje. Mas onde estamos em relação ao Brexit? Significa isto que não vai haver acordo?  Que a saída será a pior: descontrolada? E que significa para os investidores, uma vez que as ondas de choque deste volte-face se propagaram aos mercados europeus e, em particular ao mercado cambial?
 
Vamos ver.
 
Que fazer para já? Ficar longe dos ativos de risco.
 
A primeira reação é de venda. Os investidores estão a desfazer-se da libra com receios da falta de um acordo, apesar de Theresa May, primeira-ministra britânica, já ter vindo garantir que o Reino Unido abandona mesmo a União Europeia no fim de Março. E, sem um vislumbrar de pacificação política no Reino Unido, a libra continuará a desvalorizar.
 
O pior cenário para a economia do Reino Unido é entrar em recessão em 2019 se um acordo não for conseguido. Se assim for, o UBS prevê que o país entre em recessão no próximo ano, com uma contração do PIB que poderá chegar aos 10%, ainda assim menos profunda do que a que se verificou pós crise de 2008. Sem surpresas, o setor mais afetado será o financeiro, que voltará a passar por testes de stress, retração da atividade interna e na banca de investimento com a deslocalização (Paris ou Frankfurt) de uma parte ainda expressiva da sua atividade, que se repercutirá sobre o emprego e a atividade económica na zona de Londres, a qual representa uma parte ainda expressiva do PIB do Reino Unido.
 
Mas este cenário não é o mais provável, diz o UBS que, mesmo depois da demissão dos ministros britânicos, está a apostar no chamado “soft Brexit”. Neste caso, as projeções do UBS preveem uma aceleração do PIB de 1,2% para 2018 e de 1,8% para 2019. É em 2020 que as coisas pioram e não só por causa do Brexit (muitos analistas preveem uma desaceleração global em 2020, com epicentro nos Estados Unidos). O Reino Unido poderá contrair 1,3% em 2020, com alguns fatores a ajudarem a economia do país, a começar pelas contas públicas equilibradas, inflação abaixo dos 2% e a valorização da libra.
 
Mas olhando para o curto-prazo, as principais casas de investimento já estão a tomar medidas e a avisar os investidores.
 
Para o Saxo Bank, este volte-face no acordo volta a acelerar a incerteza e aumenta a probabilidade de um não acordo e caos em março de 2019. As ramificações de um desfecho deste seriam demasiado devastadoras para o Reino Unido e para a União Europeia e, por isso, o mais certo é que haja um prolongamento das negociações. Nestas condições, a casa de investimento não vê nenhuma vantagem em investir em ativos de risco britânicos, uma vez que há várias alternativas noutras geografias.
 
O BNP Paribas também não acredita numa saída desordeira do Reino Unido da União Europeia. Se chegarmos ao final de março de 2019 sem acordo, o banco aposta num prolongamento das negociações e, nesse cenário, poderá colocar-se um novo referendo que, muito provavelmente, reverterá a decisão de 2016.
 
Para o IG Group, o acordo está hoje mais longe que ontem e as consequências passam por um impacto negativo no crescimento do PIB. Juntando a isto a crise italiana, as guerras comerciais, os resultados das empresas norte-americanas a não saírem tão fortes quanto o esperado, o apetite por ativos de risco vai demorar mais tempo a recuperar.
 
Uma ronda pelas principais casas de investimento mostra um amplo consenso em relação a deterioração das ‘yields’ da dívida pública britânica e uma recomendação para ficar longe de ativos com maior risco, sobretudo tratando-se do mercado britânico.
 
Uma parte muito substancial das más notícias no Reino Unido já se encontra incorporado no mercado, todavia a fragilidade política poderá criar as condições para que os próximos meses sejam desfavoráveis aos mercados embora de uma magnitude cada vez menor, porque tudo tem um teto mais também tem um bottom.

Uma boa forma de mitigar estes riscos pelos investidores baseia-se na decisão de investir em produtos diversificados, quer por classes, quer por regiões, quer por moedas ou seja, mais transversais, de modo a mitigar o risco latente de um Brexit “des”controlado(?).



 
Alexandra Ferreira (194)