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Direção da Semana
26 Junho 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Eleições europeias 2019: Cautela recomenda-se
Decorrido um mês das eleições europeias, é tempo de refletir sobre o que os resultados significam em termos de perspetivas económicas e deixar algumas notas do que pode afetar o investimento. Começando por dizer que os resultados trouxeram consigo algumas surpresas. Talvez não surpresas mas confirmação de más expetativas: o apoio aos partidos populistas subiu de 22% em 2014 para 28%. O ranking das principais famílias políticas também saiu em linha com o que indicavam as sondagens, com os partidos do centro direita a conseguirem a maior representação, seguidos do centro-esquerda e, finalmente, dos centristas.

Não há dúvida de que estas eleições confirmaram que o sentimento anti establishment tem vindo a crescer nos últimos anos. Mas daí a que este sentimento venha a ter consequências nas políticas que vierem a ser adotadas na Europa, isso já é outra história. E por várias razões.

Em primeiro lugar porque o apoio aos movimentos populistas se mantém bem abaixo dos 50%, o que limita o seu poder no Parlamento europeu. Em segundo lugar, os partidos ditos populistas não falam a uma voz nem têm uma coesão que permita imaginarmos a constituição de uma frente unida. Em terceiro lugar, o processo de tomada de decisão na Europa continua a dirimir-se sobretudo ao nível intergovernamental, com as grandes decisões a requerem o acordo dos líderes dos países, na esfera do Conselho Europeu. Em quarto lugar, mas não menos importante, os partidos populistas têm vindo a suavizar a sua retórica eurocética, focando o discurso concretamente nas questões da imigração em vez da saída da União Europeia.

As consequências em termos de nomeações futuras para as posições-chave na arquitetura europeia, a começar pelas mais importantes – o Presidente da Comissão Europeia, o Presidente do Banco Central Europeu e o Presidente do Conselho Europeu – também não parecem ser demasiado significativas, pelo menos para os analistas de mercado. As pessoas que ocuparem estes lugares serão o resultado de negociações entre os líderes europeus e que devem levar em conta os resultados das eleições mas serão, sobretudo, discretas.

Especificamente para o Presidente da Comissão Europeia, o candidato deverá ser proposto pelo Conselho Europeu e deverá sair da família política que obteve mais votos nas eleições e, por isso, tem mais assentos no Parlamento. Se esta convenção for seguida, o próximo Presidente da Comissão Europeia deverá ser Manfred Weber.

Pode argumentar-se que os partidos da extrema-direita poderiam quase equiparar em número de lugares caso se unissem, mas uma aliança entre eles é altamente improvável. Além disso, esta convenção tem sido altamente criticada, pelo que pode nem sequer ser seguida.

Existem algumas implicações nacionais que resultam destas eleições. Talvez a mais evidente tenha sido a reação do Primeiro-ministro grego, Tsipras, a convocar eleições relâmpago que devem ter lugar no início de julho em vez de esperar pelo "tempo regulamentar" que as previa apenas no Outono.

Em Itália, a Liga obteve uns impressionantes 34% de votos, o que muda o equilíbrio de forças dentro do Governo italiano, apesar de não ser óbvio que os partidos que hoje estão coligados desejem ou beneficiem do fim desse arranjo.

No Reino Unido, a força do partido pró-Brexit – que recebeu mais de 31% dos votos – fez aumentar a pressão sobre o partido Conservador para que adote uma abordagem mais dura sobre o Brexit. Mas, ao mesmo tempo, a saída de Theresa May já indicava que este seria o caminho.

Em suma, apesar das eleições europeias não mudarem as regras do jogo que se aplicaram até aqui em termos de políticas adotadas pela União Europeia, confirmaram que o populismo permanece forte e em crescimento e é, por isso, uma ameaça significativa à frágil união monetária no médio prazo. O aumento do sentimento anti-establishment também reduz as já de si modestas expetativas de maior integração europeia.

No que respeita aos mercados, estas eleições reforçam as perspetivas de crescimento fraco, baixa inflação e taxas de juro baixas na Zona Euro. "Traduzindo por miúdos": a recomendação é de cautela sobre a dívida pública dos países periféricos e, de uma forma mais geral, sobre o risco de crédito europeu.

 
Alexandra Ferreira (216)