EN ES
Esqueci a minha password
    Voltar
Direção da Semana
11 Fevereiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Investimento: watchlist para o primeiro trimestre
Como estamos já na fase adiantada do ciclo económico, é prudente navegar à vista quando pensamos em investir. Que quer isto dizer? Que devemos estar atentos à agenda do mercado e aos temas que tudo podem mudar no sentimento dos mercados.

Primeiro tema: a Fed, sempre a Fed

Olhemos então para as mensagens que saíram da primeira reunião de 2019 do banco central norte-americano.

A primeira mensagem que a Fed quis deixar clara foi a sua intenção de ser cautelosa perante um cenário macroeconómico dos Estados Unidos e mundial que é mais incerto em 2019 e 2020. A segunda é que considera que o atual nível de taxas de juro é relativamente neutro, ou seja, que não está nem a estimular nem a restringir o crescimento, o que quer dizer que os investidores devem esperar uma manutenção das taxas, pelo menos por agora.

Mas a Fed disse mais. O banco central reiterou que, em caso de uma recessão ou ciclo económico negativo, está preparado para usar um amplo leque de ferramentas – incluindo regressar à compra de ativos para aumentar o dinheiro em circulação nos mercados – se simplesmente manter ou baixar juros não for suficiente.

As grandes gestoras de fundos celebraram as mensagens da Fed: o banco central tem motivos para estar cauteloso no contexto do aumento dos riscos económicos globais, acompanhados de incertezas no campo político e regulatório. O risco de aumento significativo da inflação está colocado de parte, bem como o risco de desequilíbrios financeiros.

O valor dos ativos baixou significativamente em 2018, à medida que a incerteza sobre a economia aumentava e a Fed subia taxas. De tal forma que as avaliações dos ativos estão, basicamente, de novo em linha com os níveis médios pós-crise. Entramos em 2019 com preços dos ativos mais baixos e a refletir realmente os riscos que impendem sobre os preços neste começo de ano, sem exageros mas também sem deixar de reconhecer as nuvens cinzentas no horizonte.

Em dezembro, as ações norte-americanas tiveram o pior desempenho desde fevereiro de 2009, com os típicos ativos de refúgio a receber atenção redobrada, entre eles o ouro, o iene japonês e a dívida norte-americana. A 'yield' da dívida norte-americana caiu para o nível mais baixo desde o início de 2018 e os preços dispararam. Um sinal de que os investidores estão a sacrificar retorno em troca de proteção dos seus investimentos.

Olhando para a agenda do primeiro trimestre, a expetativa dos analistas é a de que a Fed vai voltar a travar na trajetória de subida das taxas quando publicar as suas projeções económicas em março. Quer isto dizer que em vez de mais duas subidas das taxas de juro previstas para este ano, ao banco central deverá ou proceder a uma única subida ou estender no tempo a trajetória de subidas.

O segundo tema-chave: as tréguas com a China estão a chegar ao fim

A trégua acordada entre os Estados Unidos e a China sobre a guerra comercial termina no dia 1 de março e o que se segue é uma grande incógnita, uma vez que pouco se conhece do que foi acordado entre o Presidente norte-americano e o homólogo chinês no dia 1 de dezembro, quando iniciou a trégua de três meses. E o que o mercado não sabe é visto como um sinal da fragilidade do acordo.

As últimas medidas anunciadas pela China – aumento da compra de produtos norte-americanos, proteção e respeito pela propriedade intelectual e compromisso com maior abertura da Economia – podem levar a uma extensão desta trégua mas o tema da guerra comercial não vai desaparecer dos mercados.

A terceira data: 29 de março, dia D do Brexit

O dia 29 de março de 2019 será aquele em que, em princípio, o Reino Unido abandonará a União Europeia. O Reino Unido terá de chegar a um acordo sobre os moldes em que sai da União para evitar o hard exit. Mas poucos acreditam que um acordo ainda seja possível e dentro do prazo. Mas entre as dúvidas e certezas, não há um cenário previsível e a economia do Reino Unido já se ressentiu de forma significativa em 2018 e os últimos dados sobre o sentimento económico são muito negativos. A verdade é que a queda da libra parece indiciar que é mesmo para o pior cenário que o país caminha: um cenário de rutura não organizada.

Quanto às carteiras…

A incerteza em torno destes eventos-chave traz consigo um aumento significativo da volatilidade e pede dos investidores que apostem na resiliência da carteira, mesmo que isso signifique sacrificar retorno: exposição à dívida pública de países com rating elevado, para acomodar eventuais quedas do lado do risco, e aposta em ativos de risco de qualidade em mercados com melhores perspetivas de crescimento, nomeadamente alguns emergentes, mas sempre numa lógica de seleção criteriosa.
 
Alexandra Ferreira (214)