EN ES
Esqueci a minha password
    Voltar
Direção da Semana
10 Maio 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Quem diria que Donald Trump afinal é amigo do Ambiente?
Há pelo menos uma consequência positiva da eleição de Donald Trump (se compensa tudo o que dela resultou para o mundo e para o investimento, é outra conversa): o tema do "investimento com impacto" entrou definitivamente para a agenda.

Os ativos sob gestão destas estratégias de investimento sustentável, responsável e com impacto aumentaram para 12 biliões de dólares no início de 2018, de apenas 8,72 biliões de dólares em igual período de 2016.

Porquê? Porque a procura justamente por este tipo de investimento disparou: um estudo do Morgan Stanley realizado no final de 2018 concluiu que 75% dos investidores individuais e 86% dos millennials que investem estão interessados em investimento sustentável.

Se é verdade que a eleição (surpreendente) de Donald Trump trouxe muitos efeitos inesperados aos mercados financeiros – muitos indesejados como a guerra comercial – um deles foi benéfico: este aumento do crescimento do interesse e do investimento no chamado investimento com impacto e outro tipo de estratégias que têm em conta estes valores da sustentabilidade.

Já aqui falámos deste tema: são investimentos que ajudam as pessoas e/ou organizações a alinhar os seus investimentos com os seus valores pessoais. Existe uma variedade deste tipo de investimentos e, por causa disso, têm várias designações: investimento socialmente responsável, investimento "verde" ou outro nome que remeta para o universo da sustentabilidade, seja mais ligados aos temas climáticos, seja a outras matérias como Corporate Governance ou igualdade de género.

Se a eleição de Donald Trump tirou certamente o sono a empresas que estavam em negócios que prosperavam por causa da agenda de sustentabilidade de Barack Obama, o lado positivo e porventura inesperado, foi que quando Trump virou as costas a esta agenda, muitos investidores decidiriam alinhar os seus investimentos com os seus valores. Deste ponto de vista, Donald Trump até foi (quase) bom para o Ambiente!

Já este ano, a gestora de fundos Fidelity fez um outro estudo que mostra que, atualmente 37% dos millennials que investem, fazem-no seguindo estratégias de sustentabilidade e 40% pretendem adicionar esta componente à sua carteira.

Esta procura crescente por investimentos com impacto e assente em valores foi certamente alavancado por investidores socialmente progressistas que reagiram desta forma à eleição de Donald Trump: muitos deles deram por si num ponto de inflexão em que se sentiram obrigados a expressar os seus valores publicamente, tenha sido através de manifestações, expressão de opinião em media ou simplesmente na forma como gastam e investem o seu dinheiro.

Ouvidas pela CNBC, uma gestora de fundos partilhou que uma mão cheia de clientes simplesmente rejeitou a ideia de investir em empresas cujas equipas de gestão e líderes eram apoiantes de Donald Trump. Outra gestora de fundos falava em dezenas de pedidos de clientes para que fosse feito um levantamento das empresas das quais Trump obtinha lucros ou que beneficiariam da construção do muro na fronteira com o México e deram ordens para desinvestir imediatamente nessas empresas. Era o boicote a Trump, que até tinha um hashtag: #GrabYourWallet.

Justamente a refletir o crescente interesse pela agenda da luta contra as alterações climáticas, igualdade de género e questões migratórias, uma empresa de trading automático (gerido por um algoritmo), a OpenInvest, criou um portfólio de investimento chamado "Stand Up to Donald Trump" que permite aos investidores evitar investir nas empresas que apoiam financeiramente o Presidente dos Estados Unidos.

Em suma, muitos investidores simplesmente retiraram o seu dinheiro para o aplicar justamente nos seus opositores naturais: as empresas que mais investem em sustentabilidade, nomeadamente as mais ligadas a alterações climáticas.

Investimento "ativista" contra Trump ou investimento alinhado com valores pessoais, a verdade é que se tornou bastante óbvio que a eleição de Donald Trump significaria uma vida difícil para as empresas que até ali tinham um conjunto de benefícios que resultavam do alinhamento político da Administração de Obama com estes temas. E a resposta veio do investimento privado via mercados de capitais.


Investimento preferido dos millennials mas não só

As estratégias de investimento sustentável são uma indústria de nicho há várias décadas nos Estados Unidos. Mas nos últimos dois anos registou um aumento tremendo e as gestoras de fundos não hesitam em ligar esse fenómeno à eleição de Trump.

Os millennials têm a fama de ser os que primeiro olharam seriamente para este tema e que mais investem nestes ativos que têm um impacto positivo no mundo. Mas não são os únicos.

De acordo com um estudo recente da Morningstar, uma das maiores consultoras de investimento do mundo, 72% da população norte-americana está interessada em investir em fundos que, na sua base, estão ligados a investimento nas áreas do Ambiente, Social e de Governo das Sociedades. E, a par dos millennials, na mesma proporção, também a geração X que os antecede está interessada neste tipo de investimento. A geração anterior, de babyboomers, parece ser a mais desligada desta tendência.

Outro mito é o de que as mulheres são mais ligadas a estes investimentos do que os homens. De facto há uma diferença mínima mas longe de ser significativa, diz a Morningstar.
Quanto é que cada uma destas gerações está realmente disposta a investir neste tipo de fundos? E quais os temas que preferem?

Para responder à primeira parte da pergunta, a questão do horizonte temporal é muito relevante: enquanto os babyboomers e geração X estão ou na reforma ou próximos dela, os millennials têm ainda um longo período pela frente. E que temas preferem? Também aqui há diferenças. Para o grupo mais velho, questões de religião e diversidade são mais importantes, enquanto para os millennials, os temas do Ambiente e dos Direitos Humanos lideram as opções.
Alexandra Ferreira (214)