EN ES
Esqueci a minha password
    Voltar
Direção da Semana
31 Dezembro 2018
Alexandra Ferreira - Opinião
Seis passas – ou seis favas – para o investimento de 2019
Se olharmos para as previsões dos índices de referência para o ano que termina, não surpreende ninguém que 2019 seja um ano para poucos otimismos.

O banco UBS avançou com algumas estimativas para o fecho do ano nas bolsas e antecipa uma quebra de 12,6% para o índice S&P. A confirmar-se este número, será a quarta maior correção de mercado desde a Grande Depressão dos anos 30. A pior teve lugar em 1987, seguida da recente crise de 2008 e da queda de 1941.

Uma queda superior a 10% tem um impacto muito significativo nas carteiras. Se pensarmos que o valor do conjunto das empresas que compõem o índice S&P 500 soma 25 biliões de dólares, e somando as quedas no mercado europeu e chinês, temos uma diminuição da riqueza mundial equivalente ao PIB conjunto do Reino Unido e França. Não é coisa pouca.

Este é o ponto de chegada a 2019. Por isso importa falar nos aspetos macroeconómicos que vão ser o pano de fundo para o investimento no ano que está prestes a começar. São seis passas – ou seis favas – que marcarão 2019.

Quão adiantados estamos no ciclo?

Entre as casas de investimento não restam dúvidas: a economia global já ultrapassou o ponto mais alto do ciclo, os bancos centrais continuam a retirar os apoios à economia e o risco político voltou a aumentar. A combinação destes dois últimos fatores ameaça ser a nuvem cinzenta, senão a tempestade, de 2019.

A gestora de fundos PIMCO afirma que a probabilidade de uma recessão do lado dos Estados Unidos aumentou recentemente para 30%, o risco mais elevado ao longo da última década, que foi de expansão económica.
Ainda não estamos em alerta vermelho, trata-se mais de um aviso laranja: apesar da situação de quase pleno emprego nos Estados Unidos – o que indica que a economia está no seu limite de capacidade de produção – ainda não podemos falar de sobreaquecimento que, de resto, foi o rastilho das recessões anteriores. Do lado do consumo e do crédito, ainda não chegaram sinais de alarme, o que justifica que o risco de recessão está nos 30% e não num valor mais preocupante. Mas, para efeitos de mercado, há que lembrar que não é preciso chegarmos ao cenário extremo de uma recessão para que haja turbulência nos mercados.

Chegámos ao fim do crescimento de exceção dos Estados Unidos?

No próximo ano é expetável que o gap de crescimento entre os Estados Unidos e o resto das economias desenvolvidas se estreite. Ao longo de 2018, as empresas norte-americanas beneficiaram do facto da Administração Trump ter avançado com uma redução substancial da carga fiscal para as empresas, que teve o efeito de melhorar os resultados e fazer crescer o PIB de forma exponencial. Mas o efeito de crescimento provocado por esse alívio fiscal é one shot. Ou seja, quando compararmos os resultados do ano passado com os de 2018, vamos, muito provavelmente, assistir a um crescimento ligeiro ou mesmo estagnação.

A par disto, tivemos um banco central – a Reserva Federal – a aumentar paulatinamente as taxas de juro a cada trimestre, os mercados financeiros com um desempenho muito acima dos demais e um dólar a valorizar, contra os protestos do Presidente Trump.

Olhando para o que aí vem, as expetativas dos analistas recaem sobre um crescimento dos Estados Unidos mais alinhado com os demais países ditos desenvolvidos, à medida que as condições financeiras se tornam mais restritivas, desaparecem os estímulos fiscais e a correção em baixa dos preços do petróleo beneficia particularmente a Europa, o Japão e a China, já que os Estados Unidos hoje exportam mais do que importam energia.

Regresso da inflação?

A queda nos preços do petróleo levou muitas casas de investimento a reverem em baixa as estimativas para a subida dos preços uma vez que a inflação core – exclui os preços da energia – se mantém sem sinais de subida nos Estados Unidos, Europa e Japão. Nestas três regiões, as previsões são para uma ligeira subida da inflação mas bem abaixo do objetivo dos respetivos bancos centrais.

Uma possibilidade muito real é a da subida dos salários a acompanhar a queda da taxa de desemprego e o pleno emprego em alguns países (desemprego a rondar os 5%). Mas a compensar este cenário, está uma previsão da melhoria da produtividade, que ajudará a moderar a pressão sobre o custo do trabalho. Por outro lado, o aumento da concorrência e transparência no mercado de consumo – com o e-commerce – e o desenvolvimento da economia partilhada deverão manter a inflação controlada.

A Fed interrompe as subidas de taxas. E então?

Se e quando a Fed interromper a subida de taxas em 2019, será que o que se segue é um retomar mais à frente dessa trajetória ou será uma interrupção prolongada? No seu tempo à frente da Fed, Ben Bernanke também anunciou uma pausa na subida de juros e esta pergunta acabou por fazer disparar a volatilidade: os mercados gostam de previsibilidade. Mas o consenso do mercado aponta para uma interrupção longa do ciclo de subidas.

Estados Unidos vs. China: tréguas ou paz?

Pouco antes do Natal, vimos as duas partes acordarem numa trégua de 90 dias antes de imporem novos aumentos nas tarifas. Será uma pausa ou um desfecho? Para os analistas, a intensificação de tensões comerciais entre a China e os EUA deverá ter repercussões na atividade económica de ambos os países. Na China são já notórios os sinais de abrandamento da economia devido a uma desaceleração no mercado imobiliário e aos efeitos da desalavancagem. Até ao momento, o Banco Central Europeu (BCE) considera que o impacto global das tensões comerciais está a ser “limitado", mas alerta que "a grande incerteza sobre o futuro das relações comerciais pode afetar negativamente a confiança e o investimento”.

Todavia fica cada vez mais evidente que o conflito entre os dois países é muito mais profundo que a guerra comercial e, nesse sentido, continuará, ao longo de 2019, a ser uma fonte de tensão para os mercados mesmo que até venha a haver um acordo sobre o comércio.

Zona Euro: make it or break it?

A Zona Euro está de volta às manchetes políticas. Itália e o Brexit são os grandes pontos de interrogação – e fontes de tensão – quando falamos desta região. O risco político associado a estes dois países tem o potencial de gerar uma crise de confiança na Zona Euro, que terá efeitos na economia global e nos mercados financeiros.

A Shroeders prevê um abrandamento da economia na Zona Euro de 1,9% em 2018 para 1,6% em 2019.
Especificamente, em Itália, o Movimento 5 Estrelas e a Liga que formam um Governo eurocético prometem um diálogo difícil se não impossível com Bruxelas, com as suas políticas orçamentais expansionistas numa altura em que o défice se aproxima dos 3% e Itália surge como um dos países mais endividados do Euro. 

Pela dimensão da economia italiana, a terceira do Euro, podemos estar perante uma nova crise das dívidas soberanas, sobretudo dada a vulnerabilidade italiana a um contexto de aumento das taxas de juro por parte do BCE. Esta contingência é tanto maior quanto se verifica ao mesmo tempo que as negociações para o Brexit entraram num impasse e o cenário de um hard Brexit se coloca como cenário cada vez mais provável.

Do lado da política monetária, o fim de 2018 trouxe consigo o fim do programa de estímulos do BCE, a principal resposta da União Europeia à crise financeira global e à crise das dívidas que se lhe seguiu. O ano de 2019 marca o regresso da normalização da política monetária na região, apesar do BCE, muito provavelmente, prolongar em 2019 as taxas de juro baixas e operações de liquidez para que a recuperação ganhe tração.

Em 2019 assistiremos também à mudança de cadeiras no BCE, com a saída de Mário Draghi em Outubro, depois de oito anos à frente do banco central. Os candidatos ao lugar são vários, a começar pelo Presidente do Bundesbank, Jens Weidmann. Mas uma vez que haverá também um novo Presidente da Comissão Europeia e mudará o Colégio de Comissários, é mais certo que a Alemanha canalize os seus esforços políticos para este órgão. Assim, na calha, estão candidatos da Finlândia, França e Irlanda. A confirmar-se um destes últimos, não são expectáveis grandes mudanças na política monetária.

Ano de cautela para os investidores

O posicionamento das gestoras para 2019 é, por tudo isto, mais defensivo e com uma aposta clara em liquidez para garantir flexibilidade da carteira para aproveitar oportunidades específicas, alargamento dos spreads (dívida) e a elevada volatilidade.
 
Alexandra Ferreira (209)