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Direto ao Assunto
12 Março 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​​2019: não nos deixemos enganar com o otimismo de início de ano
Entrados que estamos em 2019, e com cenários para o ano não muito animadores, vale a pena parar e olhar para a fotografia destes dois meses e perceber onde estamos, independentemente do que se segue. A verdade é que, até ver, ações, obrigações e matérias-primas, tudo está a trazer ganhos aos investidores. A exceção é mesmo a moeda única e o mercado italiano.

De repente 2018 parece que foi apenas um pesadelo. Como que por magia, parece que os mercados financeiros regressaram àquele lugar feliz que foi 2017, em que todas as classes de ativos valorizavam, sem sobressaltos para os investidores.

A liderar os ganhos, com valorizações de dois dígitos, está o Brent e o índice tecnológico Nasdaq. Mesmo os ativos europeus, que as casas de investimento têm olhado de lado quase em uníssono, estão com rendibilidades acima dos 5% no caso das ações.

Mas a par deste início espetacular de 2019 para as ações, quando dezembro de 2018 tinha sido um pesadelo comparável a 2008, há outra classe de ativos que tem tido um desempenho surpreendente, tanto mais que costumam comportar-se em contraciclo com as ações: os ativos ditos defensivos, como o ouro, que subiu 2,5% desde o início de 2019 e um cabaz de obrigações norte-americanas, que valorizou cerca de 1%.

O desempenho das obrigações norte-americanas não deixa de ser atípico neste contexto de valorização do mercado de risco (ações). Logo nos primeiros dias de janeiro, a dívida a 10 anos estava a render 2,55% e mesmo com as taxas de juro a subirem nos mercados, o aumento do juro associado à dívida foi quase inexistente. E é precisamente este o comportamento de outros mercados de obrigações de referência, como as bunds alemãs, que caíram uns escassos 0,1%, a queda mais irrelevante desde 2016.

Em suma, as yields baixas começam a parecer desajustadas dum contexto de apetite pelo risco dos mercados. Vejamos. Por um lado, os indicadores macroeconómicos norte-americanos têm saído razoáveis: apesar do abrandamento da economia mundial, os números relativos aos Estados Unidos têm dado sinais de estabilização e até de alguma resiliência. Por exemplo, em janeiro, a economia norte-americana produziu 300 mil postos de trabalho e os indicadores de produção mostraram alguma recuperação apesar de estarem longe dos valores de há um ano.

Por outro lado, porque os ativos de risco têm tido um comportamento bastante positivo – o S&P ganhou 11% desde o início do ano, o Nasdaq quase 14% e o petróleo uns generosos 16% - tem havido menos necessidade de proteção da carteira, quer em relação ao risco das ações, quer em relação ao risco macroeconómico.
Desde 2017 que assistimos a esta coexistência entre taxas de juro baixas e um mercado de ações forte. Dito isto, atualmente encontramos algumas diferenças, uma delas salta à vista: as ações dos setores ditos cíclicos (valorizam quando a economia cresce e quebram quando a economia contrai) estão a liderar as subidas. Concretamente, estamos a falar do setor energético e industrial. Ao mesmo tempo, e em sentido contrário, setores tradicionalmente mais defensivos, com o da saúde ou as utilities estão a marcar passo.

Em cima disto, temos ainda as 'yields' que teimam em manter-se baixas, o que parece algo contraditório. A razão? A Reserva Federal norte-americana. Um dos catalisadores da volatilidade que marcou o último trimestre de 2018 foi a impressão de que a Fed continuaria a subir taxas. Foi com o final do ano e início de 2019 que o discurso pareceu moderar-se e surge uma Fed menos agressiva em termos de retirada de estímulos à economia, nomeadamente abrandando o ritmo de subida das taxas de juro que, até ao final do ano deverão subir apenas mais duas vezes. Com razão ou de forma algo prematura, os investidores passaram a comportar-se como se o ciclo de subidas de juros tivesse chegado ao fim. E é por isso que as yields não descolaram.

Qual é o problema de tudo isto?

Vários. Por um lado ainda haverá subida de taxas em 2019 a julgar pelas mensagens que a Fed tem veiculado. Se, ao contrário, a expetativa dos mercados se confirmar – que terminou o fim do ciclo de subidas – não é óbvio que o crescimento económico se mantenha sólido o suficiente até ao final do ano, o que vai comprometer os resultados das empresas. Finalmente, o comportamento a que estamos a assistir neste início do ano ignora o risco da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos.

A reter de tudo isto: para que continuemos a ver ações e obrigações a subirem concertadas, há muita coisa que tem de correr de uma forma muito específica e pouco previsível, pelo que estes primeiros meses de 2019 não devem servir de bússola para o conjunto do ano.
 
Alexandra Ferreira (194)