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Direto ao Assunto
27 Maio 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
A Europa está a ficar japonesa?
Desde a crise das dívidas soberanas que uma pergunta começou a assaltar economistas e o mundo financeiro. Desde 2009, ano após ano, falamos da recuperação e da pujança da economia norte-americana e esperávamos sem resposta pelo momento em que poderíamos dizer o mesmo da Europa e assistiríamos ao fim do castigo das ações europeias por parte dos investidores.

A cada ano, ainda que como um todo ficasse um pouco melhor, a Europa estava longe de acompanhar o bloco norte-americano. O que nos traz à pergunta que passou a ensombrar-nos: terá a Europa entrado num ciclo semelhante ao do Japão? Por outras palavras, entrámos num período de estagnação secular?
 

Vejamos as semelhanças

Há razões objetivas para que se faça esta comparação: no último trimestre, os juros da dívida alemã – a referência para a Europa – caíram abaixo dos 0% a somar ao facto de, desde 2008, o crescimento na Europa ser anémico.
Em 11 anos, o consumo das famílias europeias recuperou uns escassos 5%, o que equivale a uma taxa anual de crescimento de 0,5%. Quanto ao investimento, está onde estava no pico de 2008. Ou seja, recuperou depois da crise mas sem chegar a crescer. O único ponto positivo foram mesmo as exportações líquidas, que duplicaram desde 2008.

Tal e qual como no Japão, para apoiar a economia, o Banco Central Europeu reduziu as taxas de juro de forma a impulsionar a concessão de crédito e, assim, facilitar o consumo e o investimento das empresas. O perigo desta opção – necessária à data – era cairmos numa armadilha de liquidez, que acabou por se verificar. Com o dinheiro mais barato do que nunca, os incentivos para que as empresas europeias seguissem o caminho das suas homólogas norte-americanas e procurassem financiamento no mercado de capitais, foram poucos ou nenhuns.

Dez anos depois da crise, qualquer tentativa de normalização da política monetária – subir juros – acabou gorada, com o BCE a adiar sucessivamente o momento de inverter a política que tem seguido nos últimos 10 anos.

O impacto negativo na banca é hoje notório e chega à economia: à semelhança do que acontece no Japão, as famílias e empresas europeias estão extremamente dependentes dos bancos para se financiarem, ao contrário de economias mais pujantes como a dos Estados Unidos, onde são os mercados financeiros a principal fonte de financiamento das empresas.

Só que o facto de os juros estarem próximos de zero há vários anos tem um impacto muito negativo na banca e, por via dela, na economia. O efeito inicial de tornar barato o dinheiro, com o passar do tempo, passou a ser altamente penalizador, tal como aconteceu no Japão: caíram as margens financeiras (a fonte de lucro da banca), a que se somou um aumento da regulação do setor (por vezes excessivo), baixo crescimento económico e ainda o agravamento do risco político com a afirmação dos partidos dos extremos e movimentos populistas (como se viu nestas eleições europeias). Tudo isto passou a impedir os bancos – na Europa como no Japão – de continuarem a conceder crédito com facilidade.

A demografia é outro paralelismo óbvio: o envelhecimento da população, eventualmente o fator que melhor explica a ausência de crescimento, os juros e a inflação praticamente nulos. É que uma população envelhecida significa um decréscimo da população ativa, algo que tem um impacto direto em todos estes fatores.

Porquê? Colocado de forma simples, uma vez que há cada vez mais pessoas reformadas ou a prepararem-se para tal, a tendência é para poupar mais e gastar menos. Se as empresas vendem menos, têm as suas receitas mais limitadas e, logicamente, criam menos emprego e investem menos. A isto acresce, claro, uma revolução tecnológica que acelera a automação do trabalho. Resultado? Menos crescimento.

Também as contas públicas se deterioram, na medida em que os Estados são obrigados a gastar muito mais com o pagamento de prestações sociais – as reformas – e com a Saúde. Tudo isto num contexto de diminuição das receitas fiscais na medida em que, por exemplo, os impostos sobre o consumo se ressentem da diminuição do consumo privado.


Mas estamos mesmo como o Japão?

Ainda que a Europa tenha pontos comuns com o Japão, persistem algumas diferenças e que nos colocam numa situação menos crítica e porventura a tempo de evitar uma espiral deflacionista como a que encontramos no Japão.

A primeira diferença é a inflação: sim, é verdade que continua longe do objetivo do Banco Central Europeu, mas, ao contrário do Japão, há inflação na Europa: a rondar 1% desde 2012. No Japão, nos últimos 20 anos, metade do tempo a inflação foi negativa. E quando olhamos para os salários, desde 1996, reduziram 13%, justamente a acompanhar esta 'deflação', o que faz do Japão o único país desenvolvido onde os salários efetivamente recuaram.

Quanto mais tempo a inflação e o crescimento se mantiverem baixos, maior o incentivo para poupar em lugar de investir, no caso das empresas, e menor a propensão para consumir, do lado das famílias. No caso das finanças públicas, a conjugação destas duas variáveis tem um impacto muto negativo na dívida, que se torna mais cara. Acresce a tudo isto, que a destruição de riqueza no Japão em resultado da bolha imobiliária e financeira, não teve par no mundo inteiro: equivaleu à riqueza produzida em três anos no Japão.

Hoje o endividamento do Japão, medido pelo rácio dívida pública/PIB está nos 240% do PIB, enquanto, na Zona Euro, esse valor cai para os 92%. Estamos, naturalmente, a falar de valores médios, já que o endividamento em países como Itália chega aos 130% do PIB.

Finalmente, a intervenção do banco central foi também bastante diferente, com o Banco Central Europeu a agir atempadamente. A grande questão que se coloca, pese embora as diferenças, por exemplo, na resposta da política monetária, é que, estruturalmente, poucos problemas foram, de facto, solucionados.

No futuro, a Europa continuará a depender fortemente da procura externa para crescer (exportações) quando um dos caminhos que continua por fazer é o de uma maior solidariedade europeia que passa, por exemplo, pela Europa do Norte fazer a sua parte da correção dos desequilíbrios da balança de transações e passar a ser consumidor em lugar de apenas vendedor. O combate à ortodoxia fiscal da Alemanha e outros países nórdicos que se regem pela mesma bitola pode ser o balão de oxigénio que a Europa precisa para, realmente, regressar ao crescimento.
Alexandra Ferreira (216)