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Direto ao Assunto
07 Janeiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
A reforma é uma transição, não um destino em si
A forma tradicional como pensamos a reforma não pode estar mais longe das características da geração dos millennials e ainda mais da geração que nos seguiu, a geração Z.

Com o aproximar da idade de reforma é cada vez menos importante pensar na fase da vida que termina e no que se caracterizou ao longo de 45 anos: acordar para ir trabalhar, hábitos de consumo, gastos, rendimentos, etc., e pensar cada vez mais na vida que se segue, a de reformado, e essa exige cada vez mais disciplina e objetivos bem traçados, ou seja, mais planeamento a longo prazo, porque um objetivo sem um plano é só uma miragem ou um desejo.

Originalmente, o sistema de pensões foi pensado para uma esperança média de vida bastante mais reduzida do que a que temos hoje. Além disso, o panorama em termos profissionais também era bastante diferente: em geral, uma pessoa trabalhava até aos 60 e poucos anos de idade e tinha, numa boa hipótese, mais uma dezena de anos pela frente. Quase sempre com um emprego ao longo da vida, descontos para o Estado e, no final da vida ativa, recebia uma pensão que, pelo menos, igualava a última remuneração, sem perda de qualidade de vida. Um ponto de chegada depois de uma vida de sacrifício em que podíamos finalmente gozar a vida.

Se avançarmos o filme para o século XXI, temos uma história bem diferente: depois da reforma temos mais 20-30 anos pela frente. Um terço das nossas vidas passa-se depois de uma vida de trabalho. E porque vivemos até mais tarde, tudo mudou. Desde a sustentabilidade dos sistemas tradicionais de pensões – sistemas públicos – às expetativas que cada pessoa tem sobre o tipo de vida que vai querer ter quando deixar de trabalhar.

A palavra reforma passou a ser desadequada na medida em que, antigamente, estava associada a uma ideia de fim de vida, quase um desligar do mundo. Só uma pequena minoria – mais endinheirada – pensava na reforma como um período em que finalmente teria tempo para aproveitar a vida e investir no seu lazer.

O início de um novo ciclo

Hoje, o cenário é muito diferente. A reforma é sinónimo de reinvenção, da possibilidade e oportunidade de uma nova vida, de liberdade, que até pode passar por outras formas de trabalho e, certamente, por lazer. Os 60 são os novos 40 e o que antes surgia como o fim da vida, é, para muitos, o início de um novo ciclo.

Reformamo-nos de um emprego, não da vida. Muitas pessoas continuam a trabalhar depois da reforma porque simplesmente gostam do que fazem. Outros tornam-se empreendedores. Mas outros dão por si reformados antecipadamente porque a empresa onde trabalhavam avançou com uma reestruturação que dispensou os colaboradores mais próximos da reforma e dão por si fora do mercado de trabalho, e se não prepararam financeiramente esta nova fase da vida percebem, como muitos outros, uma verdade difícil: para terem o suficiente para viver, precisam de encontrar complementos de rendimento porque a pensão que passaram a receber simplesmente não cobre as necessidades, quanto mais ser suficiente para custear a qualidade de vida ambicionada.

É por todas estas razões que a reforma não é um sítio onde se chega, é mais uma fase de transição. E todas as fases de transição têm três momentos essenciais: o fim da etapa anterior, um período neutro, desconhecido, e o início do que se segue.

Mais do que em qualquer outra fase de transição das nossas vidas, a reforma é o momento em que é mais importante ter garantida uma rede de segurança. Concretamente, uma casa para viver que não tenha associada uma despesa que pese demasiado no nosso orçamento disponível (uma vez que a nossa capacidade de aumentar significativamente o nosso rendimento é menor) e – igualmente importante - almofadas financeiras que acomodem não só as nossas necessidades, mas que sejam suficientes para materializar a visão que temos da nossa vida futura.

O que está em causa é vivermos com segurança financeira. Ou melhor ainda, liberdade financeira, que nos permita pensar no que se segue.

A reforma não é um tema só financeiro, é um tema de vida. Depois de uma vida inteira a levantarmo-nos para ir trabalhar, a reforma obriga a colocar a questão do que é que nos vai motivar durante os 20-30 anos que se seguem. A dimensão financeira é, no entanto, essencial, porque, de acordo com o investimento que fizemos nela, podemos aspirar a mais e a uma vida melhor ou vivermos o último terço da nossa vida num colete-de-forças.

A nossa visão da reforma tem de ser realista. Se só começámos a pensar no tipo de vida que queremos quando estamos a poucos anos da reforma e não planeámos financeiramente essa fase, o mais certo é que a fase que iniciamos aos 65 anos ou perto disso, seja bastante mais difícil que os primeiros dois terços da vida. Se depositámos apenas no sistema público de pensões essa resposta, então o choque vai ser grande.

Vamos aos números. Os gastos com pensões em Portugal, que mais do que duplicaram nas duas últimas décadas, vão continuar a aumentar e atingir 15% do PIB em 2030, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

A despesa do Estado em pensões, entre 1990 e 2013, passou de 4,8% do PIB – abaixo da média de 5,8% da OCDE – para os 14% do PIB, bem acima da média de 8,2% da OCDE.

Entre 2000 e 2013 os gastos com pensões em Portugal aumentaram 78,4%, a terceira maior subida entre os países que compõem a organização, apenas ultrapassada pelo México e pela Coreia.

Para que este crescimento da despesa fosse sustentável para o Estado, teríamos de ter taxas de crescimento do PIB bem acima do crescimento potencial do país, o que é economicamente impossível. Assim, como a “manta não estica”, o que teremos é pensões de reforma cada vez mais baixas, com acesso cada vez mais tarde e com descontos na vida ativa cada vez mais elevados.

O complemento dos PPR

A única forma de colmatar a mais do que certa perda de poder de compra na reforma é investindo em soluções complementares, que passam pelo investimento das poupanças em produtos como os Planos Poupança Reforma.

A pergunta que se segue é quanto devíamos estar a investir. Não há uma resposta única. Depende de quando começámos e, de facto, de qual é a visão que temos para a vida que queremos ter no período que se segue à reforma. A pergunta a fazer é a que iniciou este texto: qual é a vida para a qual nos vamos reformar? Implica viajar mais? Arrancar com um novo negócio? Simplesmente passar tempo com a família e amigos? Temos de nos preocupar com a saúde financeira dos nossos descendentes? Quanto custa a vida que queremos ter?

Segundo contas da IMGA, para equipararmos o valor da nossa reforma a um salário mensal de 1500 euros, devíamos estar a colocar de lado 75 euros por mês se tivéssemos 25 anos, 135 euros se tivéssemos 40 anos e 325 euros se só começámos a pensar no problema aos 55 anos. E não se trata de agarrar nestes euros e colocar numa conta poupança.

Para que este esforço de poupança se traduza num acréscimo real de rendimento – até uma reforma de 1500 euros – é preciso que a rendibilidade desta poupança seja em média, 3,5% ao ano.

A reforma não é uma questão de finanças mas são as finanças que vão dizer que qualidade de vida podemos efetivamente ambicionar na reforma: se o El-Dorado ambicionado, se um choque de realidade.
 
Alexandra Ferreira (177)