EN ES
Esqueci a minha password
    Voltar
Direto ao Assunto
31 Maio 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​A vida depois dos 60: menos saúde e reformas baixas
Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo e onde pior se envelhece. Na fase mais adiantada da vida falta-nos a saúde e o rendimento para cuidar dela e do resto da vida. Estas são algumas das conclusões de um estudo do BBVA que, pelo sexto ano consecutivo, analisou o perfil da população portuguesa com mais de 60 anos através de uma sondagem realizada a mil pessoas.

Quando a pergunta se coloca em relação ao valor da reforma, a esmagadora maioria (92%) dos portugueses está insatisfeita. Não é para menos: a pensão média dos inquiridos ronda os 605 euros e equivale a cerca de 62,1% do seu último salário, longe de ser, como dizem os entrevistados, um valor adequado às suas necessidades. A idade em que, em média, começam a receber a pensão, é de 61 anos, sendo que um terço dos portugueses teria preferido fazê-lo mais tarde e apenas 11% mais cedo, aos 58 anos. Independentemente da idade, quando avançam para a reforma o rendimento baixa de um valor médio de 974 euros para os 605 euros.

Sobre os futuros pensionistas, seis em cada 10 pessoas entrevistadas (64%) acreditam que as pensões de quem hoje tem entre 40 e 50 anos não estão garantidas ou serão menores do que as atuais. Uma convicção absolutamente fundada e que está na origem das medidas avulsas que têm sido adotadas pelos sucessivos Governos para adiar a falência do sistema público de pensões.

De facto, apesar de quem hoje recebe pensão mostrar-se muito preocupado com as pensões dos mais jovens, apenas 2 em cada 10 reformados e 1 em cada 4 trabalhadores estariam disponíveis para ver a sua pensão reduzida em 10% de modo a ajudar a resolver o problema das pensões futuras.

Mas há mais pessoas atentas às contas da reforma: quase metade (44%) dos portugueses entrevistados informaram-se sobre o valor da reforma antes de a receberem. Ainda assim - e este é um dado muito relevante - 83% teve conhecimento apenas nos seis meses anteriores à data da reforma, o que revela uma enorme negligência relativamente à preparação para a reforma. Curioso é que apenas 11% afirma que teria poupado mais para a reforma se tivessem tido acesso mais cedo a esta informação.

E quem se preparou, poupando mais, como é que o fez? É outro dos dados preocupantes deste estudo: 6 em cada 10 portugueses que estão a poupar para a reforma fazem-no através de depósitos bancários. Um sinal do desconhecimento que permanece na sociedade portuguesa sobre temas de literacia financeira e do funcionamento dos mercados financeiros.

Mesmo sobre as pensões atuais, quase metade dos portugueses já não sente segurança na capacidade do sistema público pagar as pensões atuais. E 36% pensa que são as contribuições dos trabalhadores atuais que pagam as pensões atuais e outros 36% acham que foram as suas próprias contribuições que estão a financiar hoje a sua reforma.
 
 
Rendimento a menos para fazer face ao custo de vida

Dos mil portugueses inquiridos, a maioria (56%) afirmou ter um rendimento do agregado familiar até mil euros. Um rendimento que é insuficiente, dizem, para por exemplo, manter a habitação com uma temperatura adequada. Mais de metade não pode fazer face a gastos imprevistos superiores a 600 euros. E um terço teve de ajudar financeiramente algum membro da sua família nos últimos três meses.
Ainda assim, 41% dos inquiridos dizem poupar a maior parte dos meses mas sem que a reforma seja, necessariamente, o objetivo. Antes disso estão os imprevistos, as emergências e a ajuda aos filhos.

Uma fatia importante teme o momento em que não conseguirá valer-se a si próprio e um terço diz que está disposto a vender, hipotecar ou arrendar a sua casa para fazer face às despesas da reforma.
O tema da saúde é particularmente relevante para um país como Portugal, um dos mais envelhecidos do mundo.

O BBVA inquiriu na sua sondagem sobre como veem os portugueses com mais de 60 anos o seu estado de saúde e só 1 em cada 4 classifica o seu estado de saúde como bom.

Juntando a isto o indicador da esperança de vida saudável aos 65 anos - que mede o número de anos que uma pessoa ainda pode esperar viver sem sofrer de incapacidades – Portugal compara mais com os restantes 28 Estados-membros: segundo o Eurostat esta esperança é de 6,7 anos para as mulheres e de 7,9 anos para os homens, com Portugal a ficar na sétima pior posição da UE no caso das mulheres e perto do meio da tabela no caso dos homens.

Mas não é este indicador que serve de base ao cálculo da esperança média de vida que é usada para aferir da sustentabilidade do sistema público de pensões e que, à medida que aumenta, obriga a medidas como reduções no valor das reformas ou mais anos a trabalhar:
Quanto à que conta para as regras da reforma, a esperança de vida total medida aos 65 anos, Portugal tem a quinta mais elevada da UE no caso das mulheres, ficando a meio da tabela no caso dos homens.

Em suma: é muito difícil prolongar a vida ativa como pretende o sistema público de pensões.
Falta dizer que tudo o que acabamos de analisar diz respeito, se quisermos, a apenas um dos caminhos da reforma: aquela que é paga pelo Estado. E enquanto esta realidade não é reconhecida pelos Governos, a missão da reforma cabe a cada um de nós, com a procura de complementos de reforma que têm de ser preparados ao longo da vida ativa e que não podem, de todo, limitar-se a depósitos que não remuneram o capital.
 
Alexandra Ferreira (214)