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Direto ao Assunto
05 Março 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Ansiedade com a Reforma? Não estamos sozinhos
A ansiedade com a reforma é um fenómeno global. É o que diz um estudo do banco ING divulgado na semana passada: andamos todos a perguntar-nos (e a preocuparmo-nos) sobre se estamos a poupar o suficiente para termos uma reforma desafogada e sem  preocupações. São os europeus – que têm sistemas de pensões e proteção social bastante favoráveis mas assentes quase exclusivamente no Estado –  que estão mais preocupados.  Os norte-americanos, porque têm  as suas reformas  bastante dependentes da sua capacidade de poupança, ao longo da  vida ativa, baseados em sistemas individuais e pouco dependentes dos regimes de solidariedade social, são os menos preocupados com a reforma.

Foram quase 15 mil as pessoas que responderam ao inquérito do ING na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. Portugal não está entre os países alvos do estudo mas é seguro dizer que a ansiedade sobre a reforma e, sobretudo, o estado de "negação" em relação ao tema é semelhante ao que encontramos nos países vizinhos.

Vamos então às conclusões: Os países mais preocupados e por isso mais pessimistas são a França e Espanha, onde mais de duas em cada três pessoas dizem estar preocupadas. Nos Estados Unidos, 60% dos inquiridos dizem estar preocupados com a insuficiência de capital na reforma. Os mais otimistas sobre a sua reforma são os Holandeses mas, em média, esperam reformar-se já perto dos 67 anos.

Não é surpresa nenhuma: quanto mais tempo adiarmos o momento da reforma, menos onerosa esta será (para a pessoa e para o Estado) e mais à vontade estaremos em termos financeiros. E isto aplica-se quer aos nossos investimentos pessoais e voluntários em complementos privados de reforma, quer aos sistemas públicos de pensões, hoje em sério risco de colapso por serem modelos de repartição obsoletos e insustentáveis, num contexto de envelhecimento da população, aumento da esperança de vida e baixos salários para os novos trabalhadores pelo efeito da globalização. Colocando de forma simples: a população reformada recebe em média mais e já quase ultrapassa a população ativa que entra no mercado de trabalho mais tarde e com menores salários, na maioria dos países europeus.

Mas esta opção em prolongar a vida ativa também traz problemas (absentismo e produtividade): nenhum Governo tem coragem de cortar as pensões em pagamento e, por outro lado, mesmo que seja a vontade individual a de continuar a trabalhar, o empregador irá tendencialmente preferir renovar o seu quadro de colaboradores mais evoluídos tecnologicamente e com menores salários e há ainda a questão da saúde/absentismo que se deteriora inexoravelmente.

O estudo do ING conclui ainda outro facto interessante: a atitude dos trabalhadores perante a reforma não reflete necessariamente as realidades financeiras que estes enfrentam. Por exemplo, apesar de a França ser um dos países mais preocupados com o tema, os inquiridos vivem em completa negação: quase 70% acredita que na reforma terá o mesmo nível de vida que tem enquanto trabalhador. Nos Estados Unidos, já só 30% têm esta opinião.

Quem tem razão? Claramente que há mais motivos para preocupação do que para otimismos. A probabilidade de o futuro nos reservar uma combinação fatal de cortes de despesa por parte dos Estados, taxas de poupança baixíssimas e retornos modestos em produtos de poupança desadequados ao horizonte de investimento e perfil de risco, resultarão  numa vida pior para os reformados do que tinham enquanto trabalhadores, é enorme.
 
E Portugal? Escutemos a OCDE

Temos razões para estar preocupados. Colocando a tónica em Portugal, somos um dos países mais vulneráveis no que toca ao sistema público de pensões: capacidade financeira do estado, taxa de poupança, envelhecimento da população,… ou seja somos um dos principais membros do clube da negação ao problema das reformas. E se a resposta tem de vir do nosso esforço voluntário, privado e individual de poupança, são poucos os portugueses que já estão a pensar nisso: em 2017, apenas 14% dos portugueses (com mais de 25 anos) tinham algum tipo de solução complementar de reforma.

Não chega. Isso mesmo veio dizer a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE): a razão pela qual hoje podemos dizer que o sistema de pensões português é sustentável, diz o organismo, é porque estamos a transferir os encargos para as gerações futuras. E não, não estamos a falar dos nossos filhos. A geração que vai pagar a fatura é já a nossa, de quem está atualmente a trabalhar: vamos reformar-nos mais tarde e com uma quebra muito grande  de rendimento entre o último salário e a reforma ( estima-se em cerca de 65% do último salário, mas com tendência a ficar pior).

O novo estudo económico bianual sobre Portugal (Economic Survey Portugal 2019), apresentado na semana passada pelo secretário-geral da organização, Angel Gurría, diz que foram tomadas ou mantidas medidas que perpetuam desigualdades entre velhos e novos.

Apesar de saudarem – a bem da sustentabilidade do sistema – o aumento da idade de reforma e as restrições nas reformas antecipadas, continua a haver diferenças significativas nas penalizações dessas antecipações, que criam desigualdades no sistema. Por outro lado, desincentivam a reintegração dos trabalhadores desempregados mais velhos no mercado de trabalho e o uso da figura dos direitos adquiridos protege parcialmente os reformados dos efeitos das reformas entretanto feitas no sistema previdencial. De fora, ficam os futuros reformados, muitos deles jovens ou adultos que ainda estão longe da reforma.

O que fazer

Solução? A responsabilidade por uma reforma confortável está cada vez mais dependente de cada um de nós, e depende de um plano de ação que complemente o rendimento que teremos do sistema público. Eis os exercícios que devíamos estar a fazer:
 
  • De quanto é que precisaremos numa base mensal, contando com as despesas fixas, previsão de despesas de saúde, necessidades básicas, lazer etc?
  • Teremos a nosso cargo os nossos pais e algum apoio aos nossos filhos e netos? - Quanto é que estas despesas pesam no nosso orçamento mensal?
  • Quanto é que vamos receber de pensão do Estado? Temos outros rendimentos? Quanto é que vale o nosso orçamento familiar?
  • Qual é a vida que ambicionamos ter na reforma? 

Depois destas perguntas estruturais, é simples: a diferença entre o nosso rendimento e as nossas despesas, se for negativa, requer um plano de ação e já. Com uma fotografia mais ou menos precisa do que será a nossa condição financeira na reforma, estamos em condições de tomar algumas medidas, mas nessa fase só podemos contar com cada um de nós.

Estas medidas podem passar, por exemplo e quando possível, por adiar a idade da reforma, reduzir despesas e repensar até o nosso estilo de vida. Mas até isto pode não ser suficiente ou sequer algo que queiramos aceitar. Nesse caso, a solução passa por cobrir o gap entre o que  auferimos do Estado e as despesas. É aqui que entram os complementos de reforma, como os PPR.

Existem no mercado diversas soluções mas deverá ser cada um de nós a escolher a que mais adequa ao horizonte de investimento (quantos anos ainda podemos poupar) e ao perfil ou à tolerância quanto ao risco de investimento (conservador ou agressivo).

Seguramente, já deverá ter ouvido muitas vezes que não existem “almoços grátis”, ou seja, não podemos querer ter uma solução em produtos de reforma normalmente de longo prazo, com capital garantido, sem obviamente abdicar de boas rendibilidades. Deveremos por isso adequar as expetativas de rendibilidade com a opção de risco a tomar, mas recorde-se que quanto mais novo, mais oportunidade tem em poder optar por soluções que investem em mercados com mais risco mas com potencial maior de rendibilidade.

Agora é passar da teoria à prática. Porque um objetivo sem um plano é só wishful thinking.
 
Saiba mais sobre as soluções de reforma no site da IMGA.
Alexandra Ferreira (209)