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Direto ao Assunto
21 Junho 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​BCE pronto para ajudar a economia
O Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, defendeu que pode voltar a recorrer das ferramentas que a Instituição tem disponíveis para ajudar a economia europeia, dizendo que equacionará recorrer a um novo corte das taxas de juro ou mesmo até regressar às compras de ativos, caso a inflação não se aproxime da meta de 2% que o banco central tem como mandato.

O responsável máximo da política monetária europeia esteve esta semana em Portugal, no Fórum do Banco Central Europeu em Sintra e vinha com um tom surpreendentemente desafiante, até para este italiano que nunca deixou de fazer o que considerava ser útil para aquecer os motores da Zona Euro, mesmo enfrentando a contestação alemã e dos países ricos da Europa.

Sem meias palavras, o Presidente do BCE afirmou que se a situação económica continuar a deteriorar-se, os estímulos vão mesmo regressar. Numa reação às palavras de Draghi, o euro caiu 0,2% face ao dólar. E os investidores correram a proteger o capital, alarmados por um discurso pouco otimista em relação às perspetivas económicas: as ações subiram para valores próximos de máximos e as obrigações governamentais europeias atingiram valores inéditos, com toda a curva de rendimentos negativa nas principais economias, destacando-se os -0,3% nos Bunds a 10 anos, movimento este que conseguiu contagiar a yield das obrigações norte-americanas que atingiram os mínimos de setembro de 2017, nos 2,05%.

Estamos perante um novo paradigma nos mercados de capitais, políticas monetárias próximas de se esgotarem, fraco crescimento mundial, máximos nos mercados acionistas e mínimos de yield nas obrigações e mercados monetários. Este foi o contexto que nos anos 80 arrastou a economia japonesa para a maior e mais duradoura crise económica, apenas mudou o contexto mais globalizante das economias mundiais, o que cria maiores desafios mas mais incerteza sobre o desenvolvimentos que possa vir a ocorrer nos próximos anos.


As previsões do BCE para a Zona Euro

O Banco Central Europeu prevê um abrandamento persistente das economias da moeda única em resultado de fatores geopolíticos, bem como da escalada dos conflitos comerciais, que tem oposto os Estados Unidos ao resto do mundo, bloco europeu incluído. Longe vai o tempo em que este conflito era apenas uma ameaça: os efeitos da escalada da guerra comercial já se fazem notar na produção e exportações europeias, precisamente dois dos motores de crescimento mais importantes da Europa.

No início deste mês, o BCE reviu as suas expetativas para a inflação, indicando que a primeira subida dos juros pós crise das dívidas não deveria acontecer antes de meados de 2020. Esta afirmação mostra que o banco central duvida da recuperação económica da região dos 19 países do Euro.

O Banco Central Europeu também apresentou novas previsões económicas no início deste mês, com projeções mais modestas para o crescimento e inflação em 2020, mas ligeiramente melhores para este ano.

A grande questão que se coloca para os economistas, é se, neste momento, o banco central tem as ferramentas necessárias para enfrentar uma recessão, numa altura em que uma das suas armas mais poderosas – taxas de juro – já está em mínimos. Muitos dizem que não.
Foi a esses que Draghi respondeu, garantindo aos mercados que o banco tem capacidade de atuar caso se materializem as perspetivas negativas para o crescimento, mesmo que sejam cada vez maiores as dúvidas sobre o efeito regenerador da política monetária.
Mas Draghi respondeu a isto com a perspetiva de taxas ainda mais baixas e o regresso do programa de compra de ativos, embora reconheça cada vez mais fragilidade na sua capacidade de responder aos problemas atuais.


Estímulo orçamental

Regressando a 2011, o BCE anunciou na altura um conjunto de medidas para estimular a inflação e garantir a estabilidade dos preços. Eram estes os seus dois principais objetivos. Para tal, cortou taxas, lançou um ambicioso programa de compra de dívida pública e de empresas e permitiu que os bancos se financiassem junto do BCE com custos muito baixos, para injetarem dinheiro na Economia. Estas medidas resultaram, no curto prazo, ou parece que resultaram, porque efetivamente comprovou-se que não foram suficientes para conseguirem regenerar a economia para os novos padrões de desenvolvimento duradouro e consistentes.

Fast forward para 2018, o mesmo BCE decidiu pôr fim a alguns destes estímulos, confiante de que a Zona Euro estava numa trajetória de recuperação. No entanto, a abordagem recente do banco central mostra que é demasiado cedo para retirar este apoio à economia e até que novas intervenções podem ser necessárias.

Mas em meados de 2019 estamos numa fase em que conseguimos concluir que não chega e não é sustentável que o BCE reaja à fraca inflação e incerteza do crescimento com descidas de taxas de juro durante um período longo, na medida em que criará fortes desequilíbrios, nomeadamente o enfraquecimento do setor bancário, criação de bolhas em ativos de risco e imobiliário, criação de efeitos redistributivos indesejáveis e o aumento do número de "empresas zombie". Assim,  torna-se fundamental  que o BCE transfira a sua responsabilidade da política monetária para uma ação mais interventiva dos Governos nacionais, deixando estes de poderem contar apenas com o dinheiro barato.

Este fator tem, aliás, sido uma das críticas mais recorrentes do mundo financeiro aos países da Zona Euro: contarem só com o BCE (canalizador) para resolver os seus problemas económicos (meter muita agua na economia) em vez de colocarem em marcha programas económicos amigos do crescimento e que começam por passar por finanças públicas organizadas e pela implementação transparente e consistente do Pacto de Estabilidade e Crescimento da Zona Euro.
 
Alexandra Ferreira (216)