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Direto ao Assunto
07 Junho 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​Mercados: lá fora já se ouve o amolador de chapéus de chuva
A volatilidade tem sido a marca de água do investimento nos últimos meses, por um conjunto de razões (da Guerra comercial ao esperado abrandamento global, isco político nas economias desenvolvidas, etc.) e, por isso, é natural que os investidores estejam a alocar o capital a opções mais estáveis para proteger a sua carteira antes que haja, de facto, uma correção significativa dos mercados. E quando falamos de investimentos estáveis, o mais evidente é mesmo as obrigações. Apesar do retorno do investimento em obrigações não ser tão apelativo quanto o das ações, ganham em estabilidade e proteção. Sobretudo em tempos conturbados como os atuais onde a proteção, mais do que o retorno, é o valor a ter em conta.

E foi precisamente isso que vimos acontecer esta semana: justamente por causa dos receios em torno de um abrandamento económico global associado à possibilidade de novos cortes na taxa de juro por parte dos bancos centrais, os investidores estão a fugir dos ativos de risco de forma bastante notória e o dinheiro está a ser transferido para as obrigações. Aliás, de acordo com a EPFR, que segue de perto os movimentos de capitais nos mercados financeiros, o fluxo de capitais para as obrigações atingiu o valor máximo dos últimos quatro anos: 17,5 mil milhões de dólares foram alocados a ativos de rendimento fixo só na semana que terminou a 5 de Junho. Por outro lado, fundos de investimento com rating de qualidade e, por isso, considerados mais estáveis e oferecendo um retorno superior à dívida pública, receberam 18,5 mil milhões de dólares em apenas cinco dias.

Em sentido contrário, os mercados de obrigações mais voláteis, como os que incluem dívida de empresas e mercados emergentes, registaram resgates de 10 mil milhões de euros. A conclusão é clara: os investidores estão apostados na defesa e proteção do seu capital e esta é a tendência de curto prazo.

Porquê? Duas razões vêm imediatamente à tona: o cenário de redução das taxas de juro como forma de incentivar a economia (sinalizando que, de facto, é previsível um abrandamento global) e as guerras comerciais.

A Reserva Federal norte-americana parece agora pronta para satisfazer os desejos de Donald Trump e baixar as taxas de juro, capitulando perante a Guerra comercial que os Estados Unidos decidiram fazer ao resto do mundo, ainda que à China de forma mais agressiva e o declínio da inflação nos últimos meses.
 

Um dia chave no mercado de obrigações

Foi um daqueles dias chave nos mercados de obrigações e não de uma forma positiva, aquele que registámos esta quinta-feira. Pelo décimo dia consecutivo, a maioria das curvas de dívida dos Estados Unidos permaneceu invertida. Ou seja, as taxas a 10 anos permaneceram mais baixas que a dívida a três meses.

Em teoria, esta inversão não faz qualquer sentido: a dívida de curto prazo apresenta sempre menos risco do que a de longo prazo, pelo que a segunda deve, naturalmente, remunerar melhor os investidores. Mas é precisamente o contrário que está a acontecer há 10 dias.
 
E porque é que 10 dias é um marco tão importante? Porque todas as recessões registadas desde os anos 50 foram precedidas por uma inversão das curvas das taxas da dívida norte-americana. Em Março este movimento já tinha ocorrido mas durou apenas cinco dias até que a “ordem natural” fosse reposta”. E a História mostra que a curva tem de estar invertida pelo menos 10 dias para que se siga uma recessão.

Ainda assim, isto não quer dizer que uma recessão esteja iminente. Em média, segundo a reputada consultora Bianco Research, são precisos 311 dias antes que a economia inicie um movimento de contração depois da curva se ter mantido invertida pelo menos 100 dias. Quanto mais tempo a inversão durar, mais estragos faz na economia. E segundo a análise desça casa de investimento, uma vez que a inversão ocorra 10 dias seguidos, a História mostra que continuará assim por semanas, senão por meses.
A pressão para a  Fed cortar juros e apoiar a economia com dinheiro barato está, assim, a subir.
 
Alexandra Ferreira (216)