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Direto ao Assunto
19 Fevereiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
O ano em que o BCE começa a subir juros: a banca agradece
São cada vez mais os analistas que antecipam uma nova recessão económica a começar no final de 2020. O abrandamento económico já começou e, apesar da recuperação dos mercados em janeiro, o tempo é de apertar o cinto.

Depois de dezembro ter trazido a maior correção dos mercados desde 2008, em janeiro os investidores foram brindados com subidas relevantes e que se devem sobretudo à mudança de discurso por parte da Reserva Federal norte-americana, que criou uma expetativa no mercado de que vai interromper a subida das taxas de juro.

Se até ao final de 2018 ninguém esperava que a Fed mudasse de rumo, dezembro e o início de 2019 tornou claro que as taxas norte-americanas estavam próximas do máximo que a economia aguentava. A expetativa agora é de que aconteçam mais duas subidas até ao final do ano e, a seguir, uma pausa.

Esta inversão de política não demorará muito a refletir-se nas taxas de juro de médio e longo prazo, que tenderão a descer, o que cria as condições para que haja subidas do lado dos ativos com maior risco.

Esta mudança de discurso por parte da Fed não surpreende: em junho deste ano cumpre-se o ciclo de crescimento mais longo da História dos Estados Unidos e estamos numa fase de pressão no mercado laboral, com a situação de pleno emprego a fazer aumentar salários e, por essa via, a inflação. Com eleições nos Estados Unidos marcadas para 2020 e com a candidatura certa de Donald Trump, teremos um ano e meio marcado por um discurso marcadamente protecionista e negativo para os mercados.

A guerra comercial com a China é o tema mais relevante, já que, na prática, aquilo que os Estados Unidos estão a pedir ao outro lado é uma mudança estrutural do seu modelo de crescimento, uma ambição de difícil resposta por parte da China.

A este risco acrescem os europeus: Brexit, a coligação italiana, os movimentos do tipo coletes amarelos em França. Da política aos fundamentais das economias, o mundo vai mudar e o ciclo económico também.

No caso da Europa, 2018 trouxe uma desaceleração brutal, que foi particularmente visível no setor industrial e automóvel. De acordo com o Société Generale, se por um lado não temos a pressão da inflação que têm os Estados Unidos, certamente teremos uma subida das taxas por parte do Banco Central Europeu porque a banca precisa de ser ajudada a cumprir a sua função: a concessão de crédito.
Um estudo do banco francês estima que o facto dos depósitos dos bancos junto do BCE pagarem 0,4% de juros ao banco central – ou seja, os bancos são penalizados por terem o dinheiro parqueado junto da instituição em vez de injetarem na economia ou emprestarem entre si – está a custar 7.000 milhões de euros por ano à banca da Zona Euro. Uma fatura pesada e que descapitaliza a banca.

O Société Generale antecipa que o BCE acabará por fazer o mesmo que fizeram os Bancos Centrais da Dinamarca, Japão e Suíça, que colocaram esta "taxa de depósito" num valor entre -0,1% e 0,1% e que este cenário já está a ser estudado pelo banco central.

Como adaptar a carteira?

Reduzir risco. Reduzir risco. Reduzir risco. No caso dos ativos de risco norte-americanos, a indicação é reduzida de "acumular" para um peso neutro e no caso dos ativos europeus, o sinal não é apenas amarelo, é vermelho. A palavra é mesmo para reduzir a exposição a ações do euro.
Esta é, aliás, uma mudança notória nas apostas das gestoras internacionais. Se no ano passado a maioria dos responsáveis das entidades recomendavam como primeira opção um fundo de ações europeu, este ano apenas uma minoria olha para a Europa.

Nesta fase em que ainda não assistimos à inversão da curva de taxas de juro - uma curva descendente no médio e longo prazo – estratégias alternativas assentes em arbitragem de ativos de rendimento fixo e fundos de investimento long-short são opções a considerar. O foco deve estar na preservação de capital e procurando capitalizar algum crescimento.

Basicamente, estas estratégias procuram proporcionar exposição ao potencial de revalorização dos mercados mas com uma volatilidade inferior. Como? Adotando tanto posições longas como curtas: posições longas naquelas empresas que se tem uma maior convicção e posições curtas que permitam à equipa gestora beneficiar também das empresas sobre as quais as perspetivas não são boas. Essa maior flexibilidade traduz-se num leque maior de oportunidades e uma gestão mais eficiente do risco, que faz com que a volatilidade do fundo seja inferior à do S&P 500, que funciona como o benchmark do mercado.
 
Alexandra Ferreira (209)