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Direto ao Assunto
27 Dezembro 2018
Alexandra Ferreira - Opinião
Os millennials têm uma maratona pela frente até à reforma
A preocupação com a saúde financeira das gerações mais novas é o elefante na sala desde, pelo menos o início do milénio. A inversão da pirâmide demográfica – cada vez menos jovens, cada vez mais seniores -, salários baixos e incapacidade de poupança são os três vértices de um triângulo das Bermudas, que afeta como nunca quem hoje está a iniciar a sua carreira ou até já vai lançado. Acrescente-se a isto.

Um estudo recente feito pelo Boston College, conclui que os chamados millennials, que têm hoje entre 25 e 35 anos, estão a acumular capital mais tarde que qualquer outra geração trabalhadora anterior. Mais: comparando a geração millennial com as antecessoras – Geração X e os baby boomers – mostra que apesar dos millennials terem até uma formação superior, estão atrás em todas as dimensões económicas.

Uma das razões para este retrato é o facto de os millennials terem entrado no mercado de trabalho numa altura mais difícil. A maioria atingiu a maioridade entre 2002 e 2012, o que implicou que entraram no mercado de trabalho num período marcado quer pela crise originada pela bolha tecnológica, pela Grande Recessão pós crise de 2008.
Colocado de forma simples, estamos no auge dos efeitos perniciosos da globalização no que se refere ao tema que aqui falamos: que expetativas que podemos ter em relação à nossa reforma se deixarmos a resposta apenas “nas mãos” do sistema público de pensões.

Contas feitas, entraram no mercado de trabalho nos últimos 30 ano mais de 650 milhões de trabalhadores nos setores secundário e terciário em países de baixos salário, números que resultam sobretudo do mercado de trabalho de grandes potências emergentes como a China e a Índia,que hoje somam competências e capacidades muitas vezes superiores às competências recebidas pelos millennials europeus.
Sem surpresas, esta concorrência pelo baixo salário e elevadas competências, afeta  negativamente os salários nos países desenvolvidos. A matriz low é a marca de água desta geração. Nos últimos anos e nos que se seguem, estamos a dar passos largos rumo ao apogeu da criação de Sociedades low cost, com salários low cost, que operaram uma revolução já bem visível até nos nossos hábitos de consumo e de vida. Eis o terreno fértil para o surgimento de uma nova sociedade, uma sharing economy que responde à incapacidade de sermos proprietários de uma casa, de um carro, de assumirmos custos fixos.

Se é assim do lado do consumo, também do lado das soluções de reforma terá de vir uma resposta que, infelizmente, tarda. O que os sistemas públicos têm oferecido, através de políticas governamentais mais orientadas aos interesses de curto prazo, ao invés de uma resposta realista e racional, é antes a defesa dos seus grupos de seguidores (eleitores), com a respetiva transferência de regalias, em contrapartida da redução ou mesmo retirada de benefícios, ainda que já adquiridos.
Se no curto prazo, a solução parece manter a paz social na medida em que tem um impacto mínimo nos reformados de hoje, a prazo – e para os millennials – proporcionam a pobreza de uma parte da sociedade cada vez maior e mais indefesa que, perante este cenário, não têm à sua disposição soluções sustentáveis.  

Este grupo de trabalhadores tem muito mais dificuldade em encontrar empregos de qualidade porque agora competem num mundo global – impedindo que passem a ter uma carreira com compensações salariais comparáveis às gerações anteriores. Em resultado disto, estão atrasados em relação a essas gerações que os antecederam, quer em termos de trajetória de rendimento, quer nas expetativas que podem ter de obter uma compensação satisfatória dos sistemas públicos de pensões e até planos de compensação das empresas empregadoras, que têm vindo a reduzir este tipo de benefícios.

Em termos de preparação para a reforma, os millennials têm três grandes obstáculos pela frente. Primeiro, justamente o facto de as empresas estarem a reduzir os planos de compensação, que deixa nas suas mãos a missão da poupança para a reforma e a experiência mostra que quando assim é, o compromisso com este objetivo de longo prazo tende a diminuir. Em segundo lugar, e sobretudo com o agravamento das condições bancárias, é menos provável que tenham adquirido casa própria, o que significa que não detêm esse ativo, que pesa muito na idade da reforma, seja porque se traduz em capital potencial seja porque, ao serem proprietários, findo o empréstimo da casa, têm maior liberdade financeira. Em terceiro lugar, é uma geração mais endividada do que as anteriores.

Uma forma fácil de avaliar o grau de preparação para a reforma é medir o rácio de riqueza face ao rendimento. Por outras palavras, quanto é que os millennials conseguiram poupar ou investir em produtos de reforma ou numa casa, comparado com os seus rendimentos. Segundo o estudo, este rácio para os millennials está abaixo das gerações anteriores mas, previsivelmente, manter-se-á assim.
Este facto devia ser uma fonte muito relevante de preocupação por motivos óbvios, mas também pelo facto da esperança média de vida ter aumentado de forma significativa: vamos viver mais tempo, com menos dinheiro e com custos associados à Saúde bastante mais elevados. E à medida que assistimos às sucessivas reformas do sistema da Segurança Social, torna-se claro que teremos de trabalhar mais anos para obter a reforma da segurança social sem penalização, ainda que, mesmo sem penalização, seja bastante inferior (abaixo dos 60%) ao valor do último salário. Em 2050, em Portugal, será sensivelmente metade do último salário.

Nem tudo está perdido. A boa notícia é que para esta geração, a reforma ainda é algo que vemos à distância. Quando é que devíamos estar a poupar? Ontem. Quanto? O máximo que conseguirmos. Mas para que a resposta não seja tão vaga, uma das maiores gestoras de fundos, a Fidelity Investments, tem uma receita.

Aos 30 anos devemos ter conseguido ter de lado o equivalente ao nosso salário anual.
Aos 35 anos, esse valor sobe para duas vezes.
Aos 40 anos devemos ter o triplo.
E assim sucessivamente, até ao ano da reforma, em que devemos ter de lado 10 vezes o nosso salário anual.

Mais fácil falar do que fazer? Parece impensável? Se contarmos só com o dinheiro que colocamos num depósito a prazo, o mais certo é que fiquemos muito aquém disto. Por isso vamos pôr as coisas de outra forma: o objetivo de poupança deve significar 15% do nosso salário anual. É quanto, a cada ano, devemos reservar para o nosso objetivo de poupança. E se não conseguimos lá chegar, pelo menos devemos manter esta meta em mente.

Mas dificilmente chegaremos a uma reforma à altura das nossas expetativas de deixarmos o dinheiro parado na conta. É preciso investir de forma racional, de acordo com o nosso perfil e com acompanhamento profissional.
Alexandra Ferreira (193)