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Direto ao Assunto
29 Janeiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Pessimismo económico domina reunião em Davos
A história do Fórum Económico Mundial leva já 48 anos. Em 2019 líderes políticos e económicos do mundo inteiro voltaram a reunir em Davos e o frio que se sente nas ruas traduz também o mood para o ano que agora acaba de começar. Do Fundo Monetário Internacional aos analistas de mercado, não há palavras de ânimo, a contrastar com o tom dos últimos anos.

Em 2019, apertem o cinto de segurança. Comecemos pelo Fundo Monetário Internacional, que teve as honras de abertura da reunião magna, que decorreu na Suíça na semana passada.

Depois de, em outubro, ter cortado as previsões de crescimento global, justificando essa revisão em baixa com a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, reforçou essa nota no dia 21, com mais um corte da sua previsão. O FMI justificou esta decisão com um final de ano especialmente negativo na economia mundial e mercados, em particular a vulnerabilidade dos fabricantes automóveis alemães depois do escândalo das emissões poluentes e a quebra nas importações italianas com a crise de dívida com que o país está atualmente a braços.

Contas feitas, o FMI projeta agora um crescimento de 3,5% para 2019 e de 3,6% para 2020. Face às projeções de outubro, significa uma revisão em baixa de 0,2 e 0,1 pontos percentuais respetivamente, o segundo corte em três meses. Os números mais pessimistas vieram acompanhados de palavras pouco animadoras da responsável Christine Lagarde que disse que depois de dois anos de crescimento sólido, a economia mundial está a crescer mais lentamente do que o esperado e os riscos são significativamente maiores.

Especificamente as economias desenvolvidas, encetaram uma trajetória de declínio em termos de crescimento e esse declínio está a acontecer mais rapidamente do que o antecipado. Os números projetados pelo FMI mostram isso mesmo: o mundo desenvolvido não deverá crescer mais do que 2% este ano e 1,7% em 2020.

Os sinais vermelhos identificados pelo FMI…

Há um conjunto de fatores que podem levar a que o FMI volte a rever em baixa as projeções para o cenário macroeconómico: a falta de acordo sobre o Brexit e um abrandamento maior do que o esperado do lado da China. Ambos riscos com elevada probabilidade de se materializarem: no Reino Unido o impasse continua e a China anunciou esta semana que o seu crescimento económico em 2018 tinha ficado nos 6,6%, o ritmo mais lento desde 1990 e abaixo das estimativas dos economistas, que previam um crescimento de 6,8%.

… e o pessimismo dos empresários

A consultora PWC apresentou em Davos os resultados do inquérito que conduziu junto dos responsáveis máximos de algumas das maiores empresas do mundo. O que mais salta à vista é o salto recorde no pessimismo dos inquiridos acerca das perspetivas para a economia mundial.

Foram entrevistados 1300 Presidentes Executivos e 30% acreditam que haverá uma contração na economia nos próximos 12 meses, seis vezes mais do que no inquérito feito em 2017.

Os novos riscos, apontam, são as guerras comerciais que estão fora do seu controlo, uma referência às tensões entre os Governos dos Estados Unidos e China, as questões de regulação e alterações que vão decorrer do Brexit e a combinação de outros riscos como as alterações climáticas.

Os responsáveis das empresas norte-americanas são os mais pessimistas: o otimismo desceu de 63% em 2018 para 37% este ano, contaminado pelas orientações políticas que saem de Washington. Depois da boa notícia da redução de impostos, nada mais veio de Washington que beneficiasse verdadeiramente as empresas. Muito pelo contrário. A agenda política e os conflitos comerciais, Governo populista e nenhum sinal de investimento público, tudo isto contribui para desânimo do lado dos empresários. 90% dos empresários chineses e norte-americanos partilham destas preocupações.

Mercados antecipam o pior para 2019

A sucessão de riscos geopolíticos e materialização de parte deles significou que o ambiente de investimento se deteriorou significativamente desde o ano passado. Foi esta a mensagem dos analistas financeiros convidados para Davos.

Mais do que a economia, os mercados lidam com factos e tendem a antecipar os movimentos macroeconómicos. Desde a última reunião em Davos, os Estados Unidos impuseram tarifas de 250 mil milhões de dólares a produtos chineses. Do seu lado, a China impôs aos Estados Unidos tarifas de 110 mil milhões de euros.

Desde o final de 2018, os mercados acusaram o agravamento das tensões e riscos identificados ao longo de 2018 e reagiram com fortes quedas, com alguns índices a entrar oficialmente em bear market.
Dia 29 de Março é a data limite para um acordo entre o Reino Unido e a União Europeia. Sem acordo – cenário que parece cada vez mais certo – o Reino Unido pode ver-se fora da União sem que tenham sido estabelecidas regras de funcionamento daí para a frente. As consequências em matéria de comércio, mercados financeiros e mil outros fatores que podem atirar o Reino Unido e os países mais expostos a esta economia para uma recessão são imprevisíveis. E se há coisa de que os mercados fogem é do desconhecido.

A verdade é que mesmo com os economistas e instituições internacionais a garantirem que em 2019 o crescimento se mantém ainda que menor, os mercados parecem estar a antecipar um cenário pior. E isto costuma ser um indicador certeiro do que vai acontecer.

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Alexandra Ferreira (185)