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Direto ao Assunto
14 Junho 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​Petróleo em queda: onde estão as oportunidades de investimento?
Nas últimas semanas, renovaram-se (e agravaram-se) as preocupações dos mercados com a escalada na Guerra comercial que opõe os Estados Unidos ao resto do mundo, mas muito em particular, à China. Também em resultado deste conflito comercial, a procura por petróleo a nível global abrandou, acompanhada de um aumento bastante notório na produção de petróleo. Resultado: menos procura, aumento da oferta significa uma queda expressiva dos preços para os níveis em que estavam no final do ano passado, quando os mercados registaram uma queda pronunciada, a antecipar uma inversão de ciclo económico e até uma recessão.

A Organização dos Países Produtores de Petróleo e outros 10 países produtores que não integram a organização, correram a cortar na produção, uma inversão da política adoptada no início do ano e que visava compensar o efeito na oferta global de petróleo, que teriam as sanções impostas ao Irão.

Contas feitas, a oferta de petróleo destes países está em mínimos de vários anos e a próxima reunião do grupo em Viena, em julho, deverá clarificar se, de facto, esta inversão da política foi apenas uma reação ou se veio para ficar no curto e médio prazo. É que um corte na produção e na oferta também tem um impacto negativo nas receitas destes países, fortemente dependentes da comercialização de petróleo.
Por outro lado, o aumento da produção de petróleo anunciado pelos Estados Unidos pode não ser tão expressivo como os últimos dados parecem querer sugerir. E se assim for, para algumas casas de investimento, esta queda dos preços do petróleo atingiu o seu ponto mais baixo e não tem condições para se agravar ainda mais.
Boas notícias quando olhamos para as oportunidades de investimento, quer através de exposição direta às matérias-primas, quer através das empresas que operam no chamado midstream do setor energético. Isto é, empresas que trabalham para optimizar os processos de produção e comercialização de petróleo e gás. Trabalham entre os produtores e o consumidor final.

A procura de petróleo depende muito do andamento e perspetivas do comércio internacional e, como tal, perdeu momentum com a escalada da Guerra comercial. Ao longo dos últimos meses, os mercados responderam à Guerra comercial com constantes reavaliações baseadas na probabilidade de vir a acontecer um acordo entre os Estados Unidos e a China que, por sua vez, conduz a algum aumento do preço do petróleo. Inversamente, quando essa probabilidade diminuiu, ao longo do último mês, o contrário aconteceu. No entanto, uma recuperação na atividade económica seria um catalisador de recuperação também dos preços do petróleo no curto-prazo.

Num horizonte temporal de curto-prazo, as mudanças previstas pela Organização Internacional Marítima, que impõem um teto ao enxofre de 0,5% em vez dos atuais 3,5% no transporte marítimo oferece um catalisador para a procura de petróleo, em particular na variante light sweet crude.

Outra  área de incerteza é a velocidade do crescimento da produção de petróleo nos Estados Unidos. Os dados disponíveis que oferecem uma fotografia em tempo real são limitados: o Departamento de Energia baseia a sua produção seminal em estimativas médias calculadas em função dos dados mensais que são alvo de revisões e atualizações.

Os economistas que seguem o preço do petróleo frequentemente aumentam os dados de produção com uma estimativa implícita de produção calculada com a inclusão de uma parte não identificável de produção. É exatamente esta parte da produção que os analistas questionam e consideram controversa: depois de ter ficado inalterada durante os meses de inverno, em parte devido ao mau tempo, a produção implícita disparou quase 12 milhões de barris/dia em março para 13 milhões/dia em maio. Este rápido aumento, se fosse real, não tinha precedente e teria acontecido exatamente antes dos novos pipelines estarem implementados para resolver o estrangulamento na Bacia Permiana, localizada no Texas, nos Estados Unidos, justamente um dos pontos essenciais da produção de petróleo do país.

A pergunta a fazer é esta: poderia a produção norte-americana aumentar desta forma tão rápida sem que tivesse havido um investimento relevante das infra-estruturas de produção e que estas estivessem já a funcionar?

Apesar dos dados de produção conhecidos continuarem a mostrar crescimento acima das expetativas, outros dados contradizem: os dados sobre a atividade nos gasodutos revelam uma quase estagnação nos últimos cinco meses, o que até contrasta com o ano passado, em que, por esta altura até foi registado um aumento. A contagem de poços de petróleo em atividade, ao contrário de 2018, tem vindo a decrescer e estão 10% abaixo dos máximos registados no início de dezembro do ano passado. Por último, as transações de crude físico na costa do Golfo mostra que existe algum estrangulamento da produção pelo que os últimos dados que falam em aumento da produção parecem pouco convincentes.
 

Onde estão as oportunidades de investimento?

Olhando para o futuro no curto e médio prazo, os analistas identificam duas oportunidades potenciais: uma é o setor de midstream da Energia, que é o primeiro a beneficiar de um aumento da produção de petróleo nos Estados Unidos, uma vez que esse aumento de produção terá de vir acompanhado da necessidade de processar a matéria-prima, transportá-la, armazená-la, misturá-la e, finalmente, exportá-la. Este setor oferece crescimento orgânico bem acima do crescimento da Economia, a par de yields e avaliações atrativas.

Outra estratégia é adotar uma exposição direta à matéria-prima, comprando petróleo, o que tipicamente se faz através da alocação a um índice de matérias-primas que esteja mais investido em petróleo.

Em resultado da estratégia da OPEP e de um conjunto de outros países produtores, o mercado de petróleo continua bastante protegido, contribuindo para uma trajetória positiva da yield para os investidores que detêm petróleo, além de uma yield potencial colateral. A probabilidade elevada da OPEP se manter firme ao compromisso de aumentar a produção, suporta um cenário de subidas futuras. Se a economia global se comportar como o previsto – sem grandes euforias mas um crescimento, apesar de tudo, ligeiro – investir em petróleo, dizem os analistas, é uma boa oportunidade.
Alexandra Ferreira (216)