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Direto ao Assunto
31 Janeiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Poupar para a reforma: colocar mais de lado ou correr mais riscos?
À medida que as pessoas vão percebendo que a sua reforma será apenas uma parte do rendimento que estão habituados a receber, mais têm evoluído as alternativas de poupança para a reforma. Os mais desenvolvidos são os planos de poupança de contribuição definida – como os PPR, para os quais fazemos contribuições mensais definidas -, mas têm surgido algumas ferramentas que ajudam a melhorar o seu desempenho e cumprir com as expectativas de quem, todos os meses, investe uma parte do seu rendimento nas suas poupanças, eventualmente com a reforma em mente.

Os fundos com uma maturidade específica – chamados target-date funds, entre os quais os que mais se destacam são justamente as soluções para a reforma – têm apostado cada vez mais em ferramentas analíticas que ajudam a otimizar os níveis de poupança ao longo da vida do aforrador, tendo em conta fatores como uma análise detalhada do rendimento proveniente do trabalho (salário), outros rendimentos, projeções macroeconómicas de longo prazo e objetivos de rendimento na altura da reforma e outros fatores.

A par desta análise, que é sobretudo técnica, há outras ferramentas igualmente importantes que atuam mais ao nível do comportamento dos aforradores e que foram desenhadas para encorajar a poupança. Segundo as principais gestoras de fundos, raramente estas duas ferramentas são usadas de forma conjunta. Mas deviam.

Vamos começar por perceber o que é isto de target date funds e porque devem ser a base de qualquer plano de poupança. A ideia é que estes fundos de investimento estão estruturados para dar resposta a uma determinada necessidade financeira que vai ocorrer no futuro. Está a pensar na reforma? Também eu.

Na base destes fundos está a ideia de que a distribuição do capital por cada classe de ativos é feita em função do horizonte temporal disponível para ir de encontro aos objetivos do investimento. De forma simples: de quanto vamos precisar quando nos reformarmos para complementar a pensão paga pelo Estado por forma a não perder qualidade de vida ou, melhor, termos a que ambicionamos? É com base neste objetivo que a carteira é pensada.

Daí a pergunta com que começámos: para atingirmos o nosso objetivo de reforma devemos simplesmente colocar mais dinheiro de lado ou investir mais em produtos de risco de modo a maximizar as hipóteses de retorno?
Uma das ferramentas mais úteis para resolver esta equação chama-se modelização do rendimento do aforrador. É uma expressão pomposa para dizer que é preciso compreender e calcular o rendimento, poupanças e comportamentos de consumo e capacidade do aforrador para conseguirmos, de forma mais precisa, chegar às taxas de poupança ideais e equilibrá-las com a componente do risco, sempre tendo em mente o horizonte do investimento.

Vamos lá modelizar então, como dizem os financeiros. Basicamente trata-se de analisar os padrões de rendimento, poupanças e gastos de um conjunto de aforradores e perceber o padrão.
O exercício é tão útil para nós, aforradores, quanto para as gestoras de fundos que nos apoiam neste caminho de uma vida que é poupar para a reforma.
 
Para determinarmos a nossa capacidade de poupança, é fundamental traçarmos como que uma linha cronológica que acompanha a nossa vida ativa. Quanto mais precisos e rigorosos formos relativamente às nossas expectativas de rendimento, mas facilmente calculamos quanto capital teremos ao longo da nossa vida para investir na poupança e mais certeiro será o equilíbrio entre o risco que vamos aceitar correr com os nossos investimentos e a nossa idade.

Regra geral, o rendimento tende a crescer em termos reais nas primeiras três décadas da nossa carreira, à medida que vamos conseguindo ser promovidos, mudar de emprego para posições cada vez melhores, ganhar senioridade e com tudo isto vêm os aumentos salariais.
Nos últimos 10 a 15 anos tendemos a ver o nosso rendimento estabilizar ou até a entrar em declínio. Parece uma contradição? Mas não é.  O declínio no nosso rendimento pode ter a ver com situações de reformas antecipadas, desemprego, divórcio, que acontecendo numa fase tardia da nossa vida, torna mais difícil recuperar.

A segunda razão pela qual devemos fazer esta reflexão – modelizar, como dizem os financeiros – é uma ideia muito simples: as poupanças resultam de rendimento não gasto. Pode parecer uma verdade de La Palice, mas é o primeiro passo para tentar contabilizar as poupanças que realmente dispomos para investir na nossa reforma ao longo da nossa carreira. E, neste exercício, alguns resultados são comuns à generalidade dos aforradores efetivos ou em potência.

- Os gastos/consumo, tal como o rendimento, são superiores numa fase mais inicial da carreira, mas tendem a crescer menos à medida que avançamos na nossa carreira e até estabilizam mais para o fim.

- O consumo atinge um pico por volta da reforma e depois começa a recuar, sobretudo porque acabamos de pagar a casa, já não temos despesas com educação.

- O espaço acima da linha que define os nossos gastos e abaixo da linha que define o nosso rendimento aumenta do meio até ao fim da nossa carreira, o que significa que é nesta fase que temos mais disponibilidade financeira para poupar para a reforma, só nos começa a faltar tempo.
Disto resulta o quê? Que, obviamente, se logo no início das nossas carreiras estivéssemos a colocar de lado e a investir na reforma entre 10% a 15% do nosso salário, teríamos uma boa reforma à nossa espera. Mas, provavelmente, estávamos a colocar um fardo demasiado pesado para quem está a iniciar a carreira, constituir família, investir numa casa e ganha pouco.

Será mais realista pensar que é numa fase mais avançada da carreira e dos rendimentos que o esforço de poupança será maior e sustentável.
Por exemplo, consideremos uma pessoa com 45 anos que quer maximizar as suas poupanças ao longo dos 22 anos que lhe resta para a reforma. É natural pensarmos que o caminho para uma reforma mais robusta passa por investir de forma mais agressiva, em produtos de risco e com potencial de valorização mais elevados. Mas, de facto, esta nem sempre é a solução mais segura para alcançar o objetivo, porque quando investimos em ativos de risco temos de contar com volatilidade que é um fator de incerteza que pode não coincidir o momento da reforma e a adequada valorização dos ativos. Neste caso só resta aguardar por melhor oportunidade de recuperar o investimento.
O caminho que produz os resultados mais seguros não é aumentar a alocação das nossas poupanças a ativos de risco – nomeadamente ações – mas sim aumentar o esforço mensal para a poupança e o tempo de investimento.

Mais risco ou aumentar poupanças?

Esta é a reflexão mais importante que podemos fazer quando estamos a planear a reforma, quando aumentamos – mesmo que pouco – as nossas contribuições para a reforma conseguimos um resultado mais seguro em termos de crescimento da poupança do que aumentando o risco. No entanto, ficaremos sempre na incerteza de quanto teríamos conseguido se tivéssemos optado por aumentar o risco do nosso investimento, mas aqui entramos no campo de quem tem mais apetência a risco mesmo que falando em poupanças para a reforma.
Alexandra Ferreira (199)