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IMGA em Direto
17 Maio 2018
Alexandra Ferreira - Opinião
É adepto? Vá aos jogos mas guarde o seu dinheiro
Numa altura em que o futebol fez o país parar pela violência absurda em Alcochete, falamos de uma dimensão relevante no acto de investir as nossas poupanças: as SAD desportivas. Este é um exemplo da pior motivação que podemos ter quando decidimos alocar poupanças: o investimento afectivo.
 
Existem essencialmente duas maneiras de investir nas SAD desportivas: o investimento em acções e a compra de obrigações. Ambas são investimentos arriscados e que de forma alguma devem merecer a nossa atenção quando o nosso objectivo é fazer crescer a nossa poupança.
 
Para os clubes, sem dúvida que se trata de um investimento proveitoso. Mas para os investidores, longe disso. Vamos compreender o racional.
 
Uma SAD é em tudo semelhante a uma qualquer empresa que desenvolve determinada actividade e precisa de dinheiro para investir e fazer crescer o negócio. Quando é cotada em bolsa, se gera lucros e melhora resultados de um ano para o outro, as acções em bolsa tendem a valorizar. E quando precisa de capital para investir no negócio, faz emissões de obrigações em que se compromete a pagar um juro. Ora, o que se passa no caso das SAD é que as receitas, o negócio, é futebol e os resultados financeiros dependem do desempenho desportivo dos jogadores. E é aqui que o investimento deixa de ser racional: é que existe uma dimensão de “acaso” muito relevante: se os jogadores estão em plena forma física, se a equipa é melhor que a adversária, se, como vemos no Sporting, há condições de estabilidade do clube para que os jogadores estejam motivados e estáveis para fazerem bem o seu trabalho.
 
Em 2017, a SAD do Benfica e do Porto foram emitentes activos de obrigações. Para 2018 estava prevista uma emissão da SAD do Sporting no valor de 30 milhões de euros e que foi adiada por causa da instabilidade no clube. E por causa dessa mesma instabilidade, o clube foi obrigado a adiar o pagamento dos juros das obrigações que tinha emitido em Maio de 2015 e que iam ser pagos com a emissão que estava programada para este ano. Estamos perante incumprimento, ‘default’, o que numa empresa tradicional é talvez o mais grave que pode acontecer para a reputação da empresa e o início do fim.
 
Como em qualquer empresa em que investimos, seja através da compra de acções ou de obrigações, a primeira condição é assegurarmos que estamos a escolher uma empresa sustentável, com contas saudáveis. Não é o caso de nenhuma das SAD.
 
A SAD do Futebol Clube do Porto está em falência técnica e a contas com a UEFA, devido ao desrespeito das regras do fair play financeiro. A Sporting SAD fechou 2016 igualmente com capitais próprios negativos, e as vendas de atletas não foram acompanhadas de grandes aquisições, o que até melhorou as contas. Mas em 2017, o Sporting foi o clube que mais gastou com a aquisição de novos jogadores e a situação financeira voltou a inverter e sem perspectivas de melhoria dado que ficou afastado das competições europeias e longe dos milhões que essa competição traria ao clube. A SAD do SL Benfica apresenta números recentes mais estáveis, inegavelmente fortalecidos pelos êxitos desportivos, mas continuam a ser débeis pelos padrões de uma empresa “normal”.
 
Assim, Uma coisa é emprestar alguns “trocos” ao clube do coração,, para o apoiar. Outra coisa é investir dinheiro que seja uma parte significativa da poupança e que significa desviar recursos que fazem diferença no objectivo de reforma.  
Alexandra Ferreira (194)