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IMGA em Direto
30 Outubro 2018
Alexandra Ferreira - Opinião
Crise italiana: vai piorar antes de melhorar
A política italiana tem sido um dos principais catalisadores de incerteza na Zona Euro em 2018. Não só (!) o facto de estarmos a falar da terceira economia da Zona Euro. Igualmente preocupante é o risco de contágio ao resto da Zona Euro, originando, nos investidores, aversão ao risco e uma fuga dos ativos denominados em euros que afetará, em primeiro lugar, os países mais vulneráveis.

Vamos ao início.

O Governo italiano resulta de uma coligação entre dois partidos populistas que, estando em quadrantes políticos opostos, estão unidos por um sentimento antissistema e profundamente eurocético. Quando se juntaram para formar Governo, fizeram-no no pressuposto e com a promessa de pôr fim à austeridade e estão muito menos preocupados em estar alinhados com Bruxelas do que em responder ao povo descontente.

O problema é que dar resposta às necessidades prementes de uma população descontente implica um esforço orçamental que é incomportável para um país como Itália, com a segunda dívida mais elevada da Zona Euro, atualmente em 130% do PIB. Mas é precisamente isso que Itália parece preparar-se para fazer.

Onde estamos agora?

Esta semana, a Comissão Europeia rejeitou a última proposta de Orçamento do Estado entregue pelo Governo italiano, que estima um agravamento do défice para 2,4%, o que fará aumentar ainda mais a dívida, sem contar com o agravamento que esta já está a sofrer só por os investidores estarem a exigir juros muito mais elevados para comprar dívida do país, que é agora visto como um risco.

Basta pensar que uma dívida de 130% do PIB e que, previsivelmente, agravará com este Orçamento, é o dobro do limite exigido por Bruxelas (apesar apenas 12 países dos 28 da EU respeitarem este parâmetro). Nestas condições, Bruxelas não aceitará qualquer proposta que não tenha como prioridade reduzir défice e dívida e se Itália não ceder – como já veio dizer o Governo – o mais certo é termos sanções.

Para já o que temos é um impasse. E enquanto aqui estamos, a primeira vítima não se faz esperar. Chama-se  confiança dos investidores. Com o líder de um dos partidos no Poder, o Movimento 5 Estrelas, Luigi Di Maio, a dizer que Itália não mais continuaria a satisfazer as agências de rating e os mercados financeiros à custa de “facadas nas costas” do povo italiano, há todas as razões para anteciparmos uma pressão grande sobre todos os ativos italianos.

Olhando para a banca italiana, por exemplo, perdeu 22,5% em bolsa desde o início do ano. Não surpreende, já que os balanços estão carregados de dívida pública que corre o risco de não ser paga. O índice de referência FTSE MIB 40 já perdeu 13,5% e está em mínimos de Dezembro de 2016.

Na dívida pública, o cenário não é diferente: para a maturidade a 10 anos, a yield negoceia acima dos 3,5% e quem beneficiou foram França e a Alemanha, que viram os investidores a procurarem refúgio na sua dívida, baixando os custos de financiamento de ambos os países.

E agora?

A Comissão Europeia deu três semanas ao Governo italiano para refazer um Orçamento que baixe o défice em vez de agravá-lo.
Já vimos este filme antes. Com legendas em grego e português e uma curta-metragem em inglês com sotaque irlandês. A Grécia tinha o discurso mais próximo do italiano e foi obrigada a pedir dois resgates pesadíssimos quando os mercados se fecharam e deixaram de ter como pagar a sua dívida mas também funções básicas como salários.

O cenário de sanções por parte da União Europeia é muito provável. Se chegar a haver acordo entre as partes, os ativos italianos deverão recuperar dos níveis atuais, mantendo-se, no entanto, o cenário de risco político, com um Governo eurocéptico. Ainda assim, até que esse cenário se verifique, é a opinião da generalidade das casas de investimento, o desempenho dos ativos vai piorar antes de melhorar. Ou seja, ainda não chegámos ao ponto mais baixo em termos de perda de valor.
Alexandra Ferreira (209)