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Investimento com Direção Assistida
04 Fevereiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Afinal juros a subir só lá para 2020
Na primeira conferência de imprensa do Banco Central Europeu (BCE) de 2019 Mario Draghi veio com uma mensagem: os riscos em torno do crescimento da Zona Euro passaram de "equilibrados" há apenas um mês – quando o banco deu por terminado o seu programa de compra de ativos - para "negativos".

E esta declaração pode mudar tudo. Até aqui, as mensagens do BCE criaram a expetativa de que os juros começariam a subir algures depois do verão de 2019. Mas vários analistas viram nestas palavras de Draghi um preâmbulo para uma alteração de calendário a ser anunciada em março.

Quando olhamos para os movimentos de mercado, os investidores estão a antecipar uma subida apenas em abril de 2020, na sequência das declarações de Mario Draghi na sua primeira intervenção do ano: as taxas manter-se-ão inalteradas "pelo menos ao longo do verão de 2019 - e em qualquer caso, durante o tempo que for necessário para garantir a convergência sustentável dos valores da inflação para um valor próximo mas abaixo dos 2% no médio prazo".

Um conjunto de analistas ouvidos pela Reuters e a gestora de Fundos PIMCO acreditam agora que esse "tempo necessário" se vai prolongar, pelo menos, até abril de 2020.

Exatamente de que subidas estamos a falar, ainda que adiadas no tempo? O consenso do mercado aponta para uma taxa de depósitos a subir de -0,4% para -0,2% no quarto trimestre de 2019 e espera que a taxa de refinanciamento – a que está hoje em 0% e que impacta diretamente, por exemplo, os créditos à habitação – suba para 0,2% na primavera de 2020.

A segunda dimensão que muda depois desta intervenção de Mario Draghi tem a ver com as operações de refinanciamento do Banco Central Europeu. Estas operações são, basicamente, o financiamento que o BCE faz aos bancos da Zona Euro para garantirem que cada banco tem liquidez assegurada. Com a perspetiva de abrandamento económico e de vida mais difícil para a banca, os analistas esperam agora que Draghi introduza operações regulares de financiamento com maturidades até dois anos.

Porque é que esta segunda dimensão também nos interessa, aos investidores e aforradores? Porque na ausência destas operações de financiamento, os bancos terão de se financiar junto de outras instituições financeiras e com custos superiores, o que pode ditar mais um ano difícil para o setor, o que se reflete no preço das ações do setor. Se juntarmos a isto uma perspetiva de taxas a subirem mais tarde, continuamos a não ter reunidas as condições para aumentar de forma relevante à exposição da carteira à banca.

Juros mais baixos mais tempo

Com a Reserva Federal norte-americana a assinalar um ritmo mais lento no caminho de algum constrangimento financeiro (juros mais altos), num contexto de incertezas geopolíticas desde o final do ano passado, a janela de oportunidade do Banco Central Europeu para normalizar a sua política monetária está muito perto de estar fechada.
 
E em matéria de incertezas, temos as de curto prazo, como o Brexit e a ausência de acordo para a sua saída da União Europeia, bem como a crise italiana. Quanto ao Brexit, poderá significar um impacto negativo relevante nas exportações e importações e, nesse sentido, no crescimento.

Aliás, a probabilidade de uma recessão em 2020 aumentou de 30% para 35%, valor apurado entre um conjunto de economistas e analistas de mercado ouvidos pela Reuters, o mais elevado desde julho de 2018.

Mas não só. As diferenças estruturais entre as várias economias do Euro são um problema de longo prazo que está a criar dificuldades no presente.

Estes desequilíbrios entre economias da Zona Euro assemelham-se ao problema estrutural do Japão, com consequências semelhantes: cenário sempre iminente de deflação combinado com uma população envelhecida que trabalha cada vez até mais tarde para garantir a sua subsistência. As últimas projeções para a inflação, calculadas pelo BCE, apontam para 1,7% em 2019 e 1,5% em 2020.

Para o BCE isto significa que é muito difícil estabilizar a inflação perto dos 2%. Para os investidores, significa colher os últimos frutos deste contexto de bonança, com taxas de juro a zeros.
Alexandra Ferreira (199)