EN ES
Esqueci a minha password
    Voltar
Investimento com Direção Assistida
07 Março 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Fundos com preocupações ESG (Ambiente, Social e Governação): a moda do investimento que se tornou intemporal
Em meados do século 20, a maioria dos investidores pensava no investimento como uma forma de produzir retornos adicionais interessantes. E nada mais. Mas o mundo mudou e, no investimento, para melhor. Naturalmente que quem investe continua a procurar o retorno, mas o caminho para lá chegar é outro.

Hoje, a indústria de investimento já não fala do investimento sustentável como uma tendência, mas sim como uma realidade, com os investidores europeus a liderarem no apetite por este tipo de estratégias. O Credit Suisse, por exemplo, afirma sem reservas que o investidor de hoje procura ativos que ofereçam, simultaneamente, rendibilidade e um impacto social e ambiental positivo.

O caminho do investimento ESG ou "investimento com impacto" começou a ser trilhado pelos millennials e a geração que nos segue é ainda mais exigente: um estudo do US Trust realizado em 2018 concluiu que 75% dos millennials ricos consideram que o impacto social e ambiental das empresas em que investem desempenha um papel muito importante no seu processo de decisão de escolher aquela empresa em detrimento de outra.

Um inquérito feito pelo Morgan Stanley aponta no mesmo sentido: a probabilidade de um millennial investir numa determinada empresa ou fundo duplica, se esta incluir no seu modelo de geração de valor uma componente de responsabilidade social.
Já a Fidelity, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, diz que uma maioria generosa de millennials afluentes (77%) e de filantropos da Geração X (outro nome para millennials, neste caso 72%) indicam que já fizeram algum tipo de investimento socialmente responsável, tal  como investir numa empresa cotada com boas práticas sociais ou ambientais.

O que é o investimento ESG e… é realmente rentável?

Colocando de forma muito simples, são estratégias de investimento que ponderam fatores ambientais, sociais e modelos de governo das sociedades (Corporate Governance) na escolha das empresas em que investem.
Para algumas gestoras, implica simplesmente evitar as “ações do pecado”, como tabaqueiras ou indústria do armamento. Para outros mais ambiciosos e ecléticos, incluirá considerar empresas que ponderam temas como a igualdade de género, responsabilidade ambiental, etc.

E quais as tendências?

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável aprovados pelas Nações Unidas em 2015 tiveram uma repercussão enorme na forma como as gestoras de fundos passaram a gerir as suas carteiras, tendo-se assistido a uma verdadeira reestruturação dos portfólios.

O Credit Suisse destaca o tema das alterações climáticas e da gestão de resíduos e, portanto, a escolha de empresas nas quais investir recai sobre as que trabalham nestes setores. Outras categorias incluem a redução do consumo de tabaco, o risco de conflito, direitos humanos e práticas anticorrupção. Outro tema e voga é a luta contra o armamento de civis.

Investidores institucionais, entre os quais se destacam os fundos de pensões, lideraram o apetite por estas carteiras ESG. Para estes, empresas que intervêm na mitigação de riscos de conflitos é o critério mais importante, seguido da luta contra o tabagismo, alterações climáticas, empresas que levam a sério o bom Governo da Sociedade e que têm planos de compensação dos acionistas equilibrados.

Mas é realmente rentável?

Muitos investidores questionam-se se a análise ESG tem um efeito positivo na rendibilidade das carteiras. Para a gestora de fundos Amundi, a resposta é sim, depois de ter feito uma análise rigorosa das carteiras que se afirmavam dentro destes critérios.
Com a procura crescente de investimentos por parte de investidores institucionais em todo o mundo, a Amundi analisou dados que vão de 2010 a 2017 para escrutinar o comportamento das ações de 1700 empresas listadas em índices de referência mundiais que refletem a realidade nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Em traços gerais, a conclusão é que as estratégias ESG tiveram pouco impacto em termos de risco global das carteiras (volatilidade e quedas), ao passo que deram um contributo crucial em matéria de rendibilidade.

Por exemplo, se tivéssemos comprado as ações que estão dentro dos 20% de empresas melhores classificadas em termos dos critérios ESG e vendido as empresas no grupo das 20% piores, tínhamos obtido uma rendibilidade anualizada de 3,3% nos Estados Unidos e 6,6% na Europa no período entre 2014 e 2017. A mesma lógica aplicada ao período entre 2010 e 2013, teria resultado em quedas de 2,7% nos Estados Unidos e 1,2% na Europa.

Ou seja, entre 2010 e 2013, o investimento ESG tendeu a penalizar os investidores, ao passo que entre 2014 e 2017 os beneficiou e numa escala superior à pressão que originou no período entre 2010 e 2013.
Em termos dos fatores ponderados pela análise ESG, nos Estados Unidos o fator "mais rentável" foi o ambiental, enquanto na  Europa foi o tema do Governo das Sociedades.

Mas o que é que explica este impacto positivo? Segundo a Amundi, a elevada procura por estas ações: como vimos no início, a geração de millennials que hoje representa uma fatia relevante e crescente do investimento, concentra os seus investimentos em empresas que se norteiam por este tipo de valores. Porque se trata de uma tendência, esta é visível quer nos fundos geridos ativamente, quer nos fundos que replicam índices, vulgarmente conhecidos por gestão passiva.

O UBS defende mesmo que as estratégias de investimento sustentável podem ser até mais estáveis que as convencionais em períodos de maior volatilidade porque os valores ESG tendem a perdurar ao longo do tempo e são "à prova de ciclo económico".

Quanto é que vale a indústria hoje?

No final de 2018 foi divulgado o estudo da US SIF Foundation 2018 sobre as tendências de investimento sustentável. Os ativos contabilizados nesta categoria valem agora 12 biliões de dólares. Para dar uma ideia melhor da importância deste investimento, um em cada quatro dólares do investimento global (46,6 biliões de dólares) está agora alocado a investimento sustentável, o que traduz um aumento de 38% face a 2016.

A primeira vez que este relatório foi elaborado foi em 1995 e, nesta altura, os ativos alocados a investimento sustentável rondavam apenas 639 mil milhões de dólares.

Quem é que está a investir neste tipo de empresas? O relatório fala em 496 investidores institucionais, 365 gestoras de fundos e 1145 instituições financeiras que fazem investimentos no mercado de capitais. Porque é que o fazem? A grande maioria das gestoras de fundos afirma que se trata de ir ao encontro do que lhes pedem os Clientes. Quanto aos investidores institucionais, falam da necessidade de cumprir uma missão social.
 
Alexandra Ferreira (194)