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Investimento com Direção Assistida
14 Janeiro 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Guia de investimento para 2019
O que podem os investidores esperar de 2019? Fizemos a ronda pelos guias de investimento elaborados pelos principais bancos de investimento do mundo e enviados aos clientes para os apoiar com uma espécie de “GPS do investimento” para o ano que agora arrancou.

O Morgan Stanley chamou o seu guia de “O Ponto de Viragem”, o Bank of America Merrill Lynch escolheu para título “The Big Low”, cuja tradução será algo como “O Grande Ponto Baixo” e o JP Morgan optou por “Contrariando os Pessimistas”. Os títulos dizem tudo: os maiores bancos e gestoras de fundos do mundo estão a preparar-se para o último fôlego do maior ciclo de ganhos da História dos mercados financeiros.

Seguidamente são apresentadas as maiores ameaças, oportunidades e temas dos mercados financeiros em 2019.

Os cenários base

Comecemos com a fotografia mais geral. Há um consenso generalizado de que 2019 será um ano de abrandamento do crescimento global e que haverá uma maior homogeneidade nos ritmos de crescimento, ao contrário de 2018 em que o mundo correu quase a duas velocidades: a da economia norte-americana, a liderar com clara vantagem, e a do resto do mundo.

Este ano a história será outra. O Bank of America Merrill Lynch diz que o abrandamento nos Estados Unidos vai notar-se sobretudo no segundo semestre, à medida que comecem a desaparecer os efeitos benéficos do choque fiscal introduzido pela Administração Trump.

O desemprego nos Estados Unidos está em mínimos de 65 anos mas o que é uma boa notícia para os trabalhadores, tem um efeito perverso nos preços: é que numa situação de pleno emprego, os salários tendem a subir e a gerar aumento de preços. Ou seja, a inflação é um dos temas a manter debaixo de olho em 2019 e tem um impacto direto no retorno real das carteiras: para obter retornos acima da inflação – e portanto reais – a composição da carteira torna-se ainda mais exigente.

A Europa não deverá crescer além de 1,5%, em linha com as restantes economias desenvolvidas.

Os crescimentos económicos mais substanciais estarão sobretudo nos mercados emergentes que, de forma agregada, deverão avançar perto de 5% mas exigem critérios apertados de escolha de geografias particulares, já que se trata de uma “manta de retalhos” com muitas especificidades locais.

Ainda sobre os mercados emergentes, no final de 2018, muito por causa da intervenção do Fundo Monetário Internacional, os balanços de um conjunto de países melhoraram substancialmente, quer na componente do equilíbrio das contas internas, quer em termos externos. Se este processo continuar, há condições para a recuperação desses mercados, da qual os investidores podem beneficiar. Outros dois fatores que podem ajudar estas geografias são a estabilização do dólar, interrompendo a sua valorização recente, resultado do segundo fator igualmente relevante em 2019: a maioria dos bancos e casas de investimento espera que a Reserva Federal Norte-americana (Fed) interrompa o atual ciclo de subidas.

Para a BlackRock será mais um “esperar para ver” como evoluem os números da inflação e outros dados económicos, antes da Fed continuar a subir as taxas de juro. Mas esta incerteza sobre uma eventual interrupção na trajetória ascendente será uma das fontes de volatilidade do mercado.

O Credit Suisse, referindo-se à Europa, onde as yields são bastante mais moderadas, recomenda que os investidores se concentrem sobretudo nas maturidades mais curtas. E acredita que as ações continuarão a ter um desempenho robusto, bem como está otimista sobre os mercados emergentes, que recuperarão algum terreno com as perspetivas de uma estabilização do dólar e acreditando que a Fed, de facto, vai interromper o ciclo de subidas das taxas.

O Goldman Sachs está mais prudente e a recomendação que fez aos seus clientes foi a de reduzirem risco do portfolio em 2019: a curva da yield das obrigações não deverá abandonar o traço plano atual e o desempenho modesto das ações, em comparação com as obrigações e liquidez, devem levar os investidores a assumir alguma aversão ao risco.

Os cenários de investimento

Damos-lhe já as más notícias ou as notícias realistas. Segundo o Barclays, 2019 será um ano de abrandamento do crescimento global e, nesse sentido, antecipa retornos de um dígito - mais próximos do 0 do que do 9 - bem como um aumento da volatilidade.

Vejamos as principais classes de ativos e as variáveis que mais contam quando falamos de investimento: volatilidade e inflação.

1. Obrigações

O atual ciclo económico está, por assim dizer, em final de vida e as chamadas fases maduras dos ciclos de crescimento aportam sempre mais risco para os investidores. Como explica o UBS, o facto do mercado de trabalho ter recuperado, significa salários a subirem, resultados das empresas mais pressionados e políticas mais restritivas por parte dos bancos centrais. Por outras palavras, o dinheiro fica mais caro e as empresas mais endividadas, na medida em que aumentam os custos com a sua dívida (velha ou nova).

Nestes cenários, o investimento em obrigações é uma estratégia para estabilizar os portfolios, reduzir risco e ainda conseguir algum retorno (mesmo que reduzido). No caso do UBS, a recomendação vai para obrigações do Tesouro norte-americanas com maturidade longa – 10 anos – ou dívida de alto rendimento (e mais arriscada) asiática.

No caso da Europa, o banco considera atrativo o investimento em ativos com exposição a crédito mas, em vez das clássicas obrigações de dívida pública ou empresas, através da aposta em credit default swaps.

2. Ações

Já quando falamos de ações, explica o HSBC, o foco vai estar menos na questão da subida das taxas de juro, como aconteceu em 2018, e mais nas preocupações com o abrandamento do crescimento económico, que provocará o esmagamento das margens de lucro e resultados menos atrativos.

Neste cenário, as avaliações que atualmente já estão demasiado elevadas vão ser as mais penalizadas. Más notícias para os Estados Unidos mas pode ser finalmente a oportunidade de recuperação dos mercados europeus, onde as avaliações estão muito longe dos valores dos ativos norte-americanos, com estes mercados a terem um desempenho negativo em 2018.

Finalmente, outro dos consensos prende-se com a necessidade de aumentar a liquidez da carteira, sacrificando retorno, mas aumentando segurança. Em tempos de volatilidade elevada, mercados sob pressão e incerteza sobre a política monetária, ter flexibilidade de alocação da carteira é essencial.

3. Volatilidade e inflação

O grande fator indutor de volatilidade nos mercados será a atuação dos bancos centrais, com especial enfoque no Banco Central Europeu e na Reserva Federal Norte-americana.

O UBS, alinhado com a maioria das casas de investimento, espera que a Fed avance com apenas duas subidas em 2019 e pare por aí antes de, em 2020 - ano em que a probabilidade de uma recessão nos Estados Unidos é avançada por vários analistas - começar de novo a baixar as taxas de juro.

Quanto ao BCE, a expetativa do mercado é a de que suba a taxa em 15 pontos base depois de Setembro deste ano, na medida em que, para já, o banco continua confiante na recuperação da inflação para um valor próximo do objetivo de 2% e rejeita a preocupação com o crescimento da Zona Euro.

Como dizíamos antes, manter a inflação sob controlo é fundamental para garantir retorno da carteira ou, pelo menos, mitigação de perdas. O enquadramento é favorável à recuperação da inflação, na medida em que o baixo desemprego leva à subida de salários e, por essa via, ao aumento dos preços.

Os conselhos dos analistas

1. Ser seletivo. Numa altura de diminuição dos retornos, os investidores devem focar-se em empresas mais expostas a crescimento e resiliência em ciclos mais negativos como as utilities e nas empresas que já incorporaram cenários adversos nas suas estimativas.

2. Diversificar, sempre. O UBS recomenda diversificação global, por geografias, setores e diferentes dimensões de empresas. Nenhuma geografia oferece um único cenário, por isso é preciso saber trabalhar a carteira em função das oportunidades que oferece cada região, cada setor, cada classe de ativos. A diversificação é a melhor arma para mitigar também a volatilidade acrescida esperada para 2019.

3. Considerar os setores até aqui negligenciados. O setor financeiro, que até então esteve fora do radar, pode beneficiar deste novo enquadramento macroeconómico, com taxas de juro mais elevadas e positivas para as margens de lucro dos bancos. O setor energético é outro que está no radar de um conjunto relevante de casas de investimento, a beneficiar também de um aumento esperado dos preços do petróleo.

4. Aposta em dividendos. Num ambiente mais desafiante - por efeito do abrandamento do crescimento - apostar em empresas que pagam dividendos generosos é outra das estratégias defensivas que podem contribuir para maximizar retorno e mitigar perdas da carteira.

5. Empresas com balanços com pouca dívida. É fácil perceber porquê: com o aumento das taxas de juro, as menos expostas à dívida são as que conseguirão os melhores desempenhos.
 
Alexandra Ferreira (185)