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Investimento com Direção Assistida
04 Junho 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
​Oráculo de investimento para os próximos cinco anos
Na última semana, a PIMCO publicou o seu “Outlook Secular”, que resulta não só das análises dos peritos de investimento da maior gestora de fundos no setor de rendimento fixo, mas também de outras vozes externas, particularmente atentas aos grandes temas atuais e que desenharão o futuro a médio e longo prazo. E mais do que desenhar o mapa das grandes tendências, a ideia é deixar aqui algumas pistas para quem investe nos mercados financeiros.

Há um conjunto de catalisadores seculares que tem o potencial de impactar a economia global, os mercados financeiros e o portfolio dos investidores nos próximos cinco anos. A afirmação é forte. Vejamos quais.


O cenário central: crescimento anémico, baixa inflação e uma recessão modesta

Quando dizemos cenário central, é aquele que encontramos com maior probabilidade. E o que a gestora prevê é que, nos próximos 3 a 5 anos, o cenário macroeconómico é relativamente benígno, pelo menos à primeira vista. À escala global, continuaremos a ter, em média, um crescimento anémico, a persistência de uma inflação baixa e juros nos níveis atuais (a própria Reserva Federal norte-americana admitiu na semana passada poder vir a avançar com cortes na taxa de juro para defender a economia, em plena guerra comercial).
Mas no horizonte de 3 a 5 anos, também haverá uma recessão global, ainda que modesta, seguida de crescimento, ainda que igualmente modesto.


Cuidado com fatores sérios de disrupção

O cenário central foi o que descrevemos mas é apenas um entre outros – vários – cenários alternativos realistas. A PIMCO identificou cinco tendências ou fatores com o potencial de disromper a economia global, os mercados financeiros e os portfolios dos investidores nos próximos três a cinco anos:


China

Apesar do cenário base relativamente à China ser o de um abrandamento gradual do crescimento chinês nos próximos 3 a 5 anos, o caminho pode ser mais acidentado do que o esperado, sobretudo se a guerra comercial com os Estados Unidos continuar a escalar.

Por outro lado, a China tem vindo a investir no objetivo de subir na cadeia de valor da sua produção para entregar produtos com maior valor acrescentado, algo que irá impactar os produtores do resto do mundo, na medida em que oferecerá o mesmo ou melhor com menos custos.

Por fim, o poder económico e geopolítico da China pode destabilizar a ordem geopolítica mundial dominada pelos Estados Unidos e, independentemente do resultado da guerra comercial, os próximos anos deverão continuar a ser de vários capítulos deste conflito.
 

Populismo

O desafio populista de ambos os lados do espetro político pode resultar em efeitos positivos e negativos nos mercados. O crescimento económico e os preços dos ativos podem ter suporte se os Governos mitigarem o excesso de zelo na regulação, reduzirem carga fiscal e/ou reduzirem a desigualdade excessiva. Ou, no lado oposto, o populismo pode tornar-se um fator de deterioração do crescimento económico e do preço dos ativos se resultar num travão à imigração, comércio internacional de bens e serviços e circulação de capitais. Na maioria dos casos, populismo rima com protecionismo, um perigo evidente e atual para o sistema económico global, assente numa cadeia de produção e abastecimento que é global e que, condicionada, tem implicações sérias nos mercados financeiros.


Demografia

O crescimento mais lento da população e uma esperança de vida maior nas grandes economias são fatores que determinam crescimentos anémicos, baixa inflação e um ambiente mais propício à poupança do que ao investimento, o que deprime as economias e gera taxas de juro neutras.

Esta conjugação de fatores obriga os bancos centrais a manter taxas de juro baixas ou até negativas, como temos assistido, por exemplo, na Europa e no Japão. Quanto mais tempo estas tendências se mantiverem, maior o seu potencial disruptivo. Taxas de juro baixas e curvas de yield planas num grande período de tempo colocam desafios para o setor financeiro, contribuem para mais endividamento das empresas e tendem a levar os investidores para ativos com maior risco, à procura de retorno.


Tecnologia

Com as tecnologias a tornarem-se mais sofisticadas, mais baratas e, por isso, acessíveis a um conjunto mais alargado de empresas, os seus benefícios para o crescimento da produtividade estão a tornar-se cada vez mais visíveis. Mas o lado menos positivo desta revolução tecnológica é que esta é altamente disruptiva para os modelos de negócio existentes e, se por um lado produz vencedores, vai fazer muitas baixas. A começar pelo aumento do desemprego de longa duração o que, por sua vez, pode resultar em descontentamento político e ainda mais apoio aos partidos populistas.


Volatilidade dos mercados financeiros

Olhando para os próximos três a cinco anos, a recente inversão da Fed, equacionando até baixar taxas, pode levar a excessos nas avaliações dos ativos, na medida em que promove a liquidez no mercado (porque o preço do dinheiro é barato), particularmente no crédito, o que é bastante semelhante ao contexto que precedeu a crise financeira de 2008. Ainda não estamos lá, refere a gestora, mas faz sentido seguir de perto estes excessos potenciais e o potencial para grandes correções, como ingrediente principal de uma disciplina de investimento.
 

Alterações climáticas

Os efeitos das alterações climáticas tenderão a tornar-se mais severos e a exigir respostas agressivas dos Governos em termos de regulação, impostos ambientais e investimento público. Este enquadramento vai gerar vencedores e perdedores no setor privado, o que exige uma gestão ativa e profissional dos investimentos, particularmente atenta a riscos de ”default”.


E que implica tudo isto para o investimento?

Todas as tendências e riscos apontados em cima, combinados com avaliações exageradas, tornaram o ambiente de investimento mais desafiante e que aconselha cautela, flexibilidade, liquidez e a procura de retorno. Ainda assim, este contexto favorece a identificação criteriosa de oportunidades para investidores ativos e seletivos. A era dos fundos de índice (ETFs) acabou, pelo menos por agora.
Alexandra Ferreira (214)