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Investimento com Direção Assistida
14 Maio 2019
Alexandra Ferreira - Opinião
Os cenários de investimento pós eleições europeias
Mais de uma década depois do colapso do Lehman Brothers é seguro dizer que a Europa, pelo menos a larga maioria dos países que a compõem, recuperou. Mas há exceções: um conjunto de países permanece estagnado há vários anos, o que se revelou terreno fértil para a emergência dos movimentos políticos populistas.

O Employment Strength Index, desenvolvido pelo banco ING, faz uma espécie de ranking de força das economias europeias, em função do crescimento do emprego ao longo da última década. Os níveis de emprego na União Europeia estão hoje 2% acima do nível em que se encontravam em 2008. Sem surpresas, países como a Alemanha, Bruxelas e Luxemburgo vão ao leme do crescimento e na cauda estão os de sempre: Itália, Grécia, Espanha e Portugal.

E é este o pano de fundo das eleições europeias que acontecem no final deste mês, a 26 de maio. Hoje olhamos para o impacto do desfecho previsível nas várias classes de ativos.

Que esperar em termos de resultados eleitorais?

O Parlamento ficará, quase certamente, mais fragmentado. De acordo com as sondagens, populistas e nacionalistas (o que os distingue é muito pouco) não deverão conseguir ir além dos 25% dos lugares. Por outro lado, as duas maiores forças políticas da atualidade – o Partido Popular Europeu e a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas – deverão perder a maioria que detêm hoje (55%). No entanto, estes dois partidos, ou federações de partidos ditos moderados, continuarão a ser os principais partidos do Parlamento Europeu e, nessa medida, poderão ter a capacidade de atrair outros pequenos partidos que poderão ganhar algum terreno, como é o caso dos Verdes. E porque destas eleições resultará um mosaico mais difícil de compor, a formação do novo Executivo europeu – a Comissão Europeia – deverá demorar mais tempo até ser finalizada e pode mesmo resvalar para 2020.

A nova Comissão é particularmente importante porque terá de montar o novo modelo de financiamento, que será essencial para o futuro da Europa.

Quais podem ser as implicações desta incerteza política para o rendimento fixo (obrigações) europeu?

Os mercados financeiros não gostam de incerteza, em particular de incerteza política. E em 2019 temos dois focos de incerteza: o desfecho do Brexit e as eleições europeias que trarão para primeiro plano os movimentos populistas e nacionalistas que têm em comum o seu euroceticismo. E isto poderá ter três implicações:

1. O euro pode desvalorizar a refletir a incapacidade do Parlamento Europeu de tomar medidas mais corajosas no sentido da integração.

2. Os spreads e as obrigações periféricas podem sofrer um impacto. Se a fragilidade política europeia continuar a aumentar, muito provavelmente assistiremos a um aumento da volatilidade de mercado, que contribuirá para spreads mais alargados da dívida de empresas e dos países periféricos. O mesmo é dizer que aumentam os custos de financiamento para países economicamente mais frágeis. E nas obrigações dos países mais fortes (Alemanha por exemplo), o juro associado deve recuar, tornando-as menos remuneradas.

3. Se houver menor integração ou um afastamento de políticas que a promovam, a atenção dos mercados passará a estar em cada país individualmente, nomeadamente nas contas públicas, o que se repercutirá nos spreads da dívida. Portugal será um dos países a sofrer, pela sua fragilidade económica.

O principal a reter em relação às próximas eleições é que o impacto dos resultados eleitorais não se vai materializar a partir do primeiro dia, mas as consequências de médio prazo podem ser significativas. As decisões mais importantes serão as pessoas escolhidas para Presidente do Parlamento e Presidente da Comissão Europeia mas o que será determinante mesmo é como é que cada Governo nacional vai interpretar os resultados das europeias em termos das políticas que vão implementar domesticamente. Isto sim, terá efeito nos mercados.

Em suma, para a maioria dos analistas, a previsão para a curva das obrigações europeias mantém-se flat mas veem nesta classe de ativos uma forma de proteção contra a previsível turbulência dos mercados.

Poderá haver um comportamento mais positivo das obrigações se o Banco Central Europeu começar a subir a taxa de juro de referência, o que terá efeitos sobretudo nas obrigações com uma maturidade mais curta. Mas este cenário é pouco credível. Antes do outono, uma subida de taxas está fora de questão, mas mesmo mais à frente, não há sinais de pressa para agir do lado do banco central, dado o abrandamento económico mundial. Em vez de mexer nas taxas, o banco deverá optar por adotar medidas de apoio ao sistema financeiro, agora que as linhas de financiamento de longo prazo estão a chegar ao fim.

Há espaço para explorar algumas oportunidades de valor entre os ativos europeus no universo das obrigações, adianta a gestora Amundi referindo Portugal e Espanha, que oferecem 'yield' e têm dado sinais de melhoria em termos macroeconómicos.

E o impacto nas ações (risco)?

A incerteza política na Europa não é de agora e é caso para dizer que, de certa forma, as atuais avaliações já descontam esse fator e as subidas de 2019 já corrigiram alguma desvalorização excessiva que vinha marcando as ações europeias em 2018.

Depois das valorizações notórias no início deste ano, a aposta mais consensual é nas ações chamadas cíclicas e, falando em setores, pode haver oportunidades no setor automóvel que foi fortemente penalizado. O segredo estará na seleção criteriosa das empresas certas.

Estratégias para atacar o mercado? A chave em 2019 é o stock picking. A microeconomia dos mercados financeiros. A ideia é olhar caso a caso em vez de escolhermos apenas uma geografia ou setor. Neste sentido, a gestão ativa e profissional é chave. Para trás ficou o sucesso dos fundos de índice (ETF’s), que se limitavam a reproduzir o comportamento de um país ou setor como um todo.

Finalmente e apesar de, como dissemos, a incerteza política estar há muito presente (e refletida) nos mercados, um desfecho negativo do Brexit ou uma deterioração significativa do enquadramento político europeu não são dados que o mercado esteja ainda a incorporar nos preços dos ativos pelo que, se se materializarem, há margem para correções nos mercados.

Para efeitos de construção do portfólio de investimento, estamos perante um back to basics: escolher as melhores empresas, independentemente do cenário político. A escolha deve recair em ações de qualidade (balanços leves de dívida e planos de negócios que evidenciem crescimento). Também valerá a pena ponderar o risco de um posicionamento num cenário de Brexit benigno, que terá impactos positivos na dívida, por exemplo. Se tudo correr bem, será muito provavelmente na Europa que estarão as maiores oportunidades de investimento.
 
Alexandra Ferreira (214)